🎧 A eleição das redes sociais e o que muda na disputa como a conhecemos

Em poucas palavras

Entrevistado: Beto Vasques, diretor do Instituto Democracia em Xeque e coordenador do Laboratório de Opinião Pública da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).

O primeiro turno das Eleições Presidenciais de 2026 consolidou uma tendência: a conversão em votos da popularidade digital de candidatos com milhões de seguidores. Pelo PL, Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato passaram de 3 milhões de votos cada para a Câmara; na esquerda, Erika Hilton, Jones Manoel, Rick Azevedo e Ana Elisa Santos Silva, de 21 anos, também chegaram ao Congresso apoiados nas redes.

No O Assunto desta quinta-feira (8), Natuza Nery pergunta se a vantagem da direita nas redes é ideológica ou de quem aprendeu primeiro a falar a língua do algoritmo. Beto Vasques atribui o resultado ao ambiente que favoreceu Flávio Bolsonaro, às decisões da campanha de Lula, à aposta comum em nativos digitais e à organicidade do PL, contra uma esquerda dividida em várias legendas e mensagens.

A conversa avança para o futuro do centrão, engolido pelo PL, as “duas almas” do partido de Valdemar Costa Neto e o efeito de um algoritmo que fortalece a figura individual e enfraquece o projeto político.


📝 Notas e Insights

A pergunta: ideologia ou algoritmo?

  • O conteúdo político encontra o eleitor no meio de uma receita, de uma dança, de um meme ou de um vídeo de 10 segundos; quem entende essa lógica disputa melhor a atenção.
  • João Feres Júnior, professor de ciência política do IESP-UERJ e coordenador do Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública (LEMEP): as mensagens que mais se difundem são as disruptivas, que provocam reações extremas de amor ou de ódio — e os estudos mostram que a direita usa mais esse estilo. Ver Social media busca maximizar engajamento.
  • Ideologias e líderes carismáticos funcionam como atalho cognitivo: quem adere ao líder adere a um pacote de posições, e isso cria uma identidade que não existia antes.
  • Disputar política nas redes não é só disputar engajamento, é disputar pertencimento — fazer alguém olhar para uma comunidade e pensar “este é o meu lugar”.

O ambiente que favoreceu Flávio

Beto organiza a explicação em duas questões ambientais, duas decisões da campanha de Lula, dois acertos da direita e um da esquerda. A metáfora é a da onda: ninguém decide se ela vem, só se vai surfá-la, passar por baixo ou tomar um caldo — e a campanha de Flávio surfou.

  • Saturação do eleitorado: um eleitor apático e cansado, que não parecia viver a iminência de uma eleição.
  • Campanha não campanha: o primeiro turno foi dominado pelo Caso Master e pelo STF e, na reta final, por Nossa Senhora. Com uma biografia “com problemas a tratar”, Flávio Bolsonaro pôde se esconder atrás disso.
  • Decisão 1 de Lula — não ir a debates: com Lula ausente, Flávio Bolsonaro também ficou livre para não ir.
  • Decisão 2 de Lula — não pegar pesado com Flávio Bolsonaro: a campanha o via como o melhor (talvez o único plausível) adversário, por ter rejeição tão alta quanto a do presidente. Beto Vasques não considera as decisões erradas, mas diz que revelavam fragilidade.
  • Eleição com incumbente é plebiscitária (continuidade ou mudança), e o indicador é a aprovação do governo: na véspera, o saldo estava entre 1 e 2 pontos negativo. Flávio terminou 1,87 ponto à frente — margem pequena, coerente com dois candidatos de rejeição alta.

Os nativos digitais e a organicidade do PL

  • Acerto dos dois lados: PL e esquerda apostaram em nativos digitais, e o resultado na Câmara e no Senado mostrou a força deles. Fecha-se um ciclo iniciado com força em 2018, em que o influenciador passa a ocupar o espaço do político.
  • Exemplo da esquerda: Rick Azevedo, balconista de farmácia por 12 anos na escala 6x1, gravou em 2023 um vídeo-desabafo que viralizou e deu origem ao movimento Vida Além do Trabalho (VAT). Eleito vereador do Rio pelo PSOL em 2024, chegou à Câmara em 2026 com 191.371 votos.
  • Acerto exclusivo do PL: um projeto com ideologia alinhada, um líder claro e um só partido concentrando votos, porta-vozes e influenciadores, com mensagem unificada da agenda ao enquadramento — usando a polarização afetiva e a guerra cultural de costumes como estratégia.
  • Em trecho de arquivo, o bolsonarismo é descrito como um movimento criado nas redes, com a “bancada da selfie” como sua ala mais fiel na Câmara, enquanto a esquerda ainda “engatinha” nesse campo.
  • Com esses dois acertos, o PL terminou de “fagocitar” quase todo o centrão.

A esquerda pulverizada e a matemática das urnas

  • O exemplo de São Paulo, segundo Beto: somados, o PSB (de Tabata Amaral e Geraldo Alckmin), a federação PT–PCdoB–PV e a federação PSOL–Rede tiveram mais de 400 mil votos a mais que o PL, mas o número de cadeiras ficou parecido (19 a 19). Federados, teriam eleito de 6 a 8 deputados a mais — e o PL, de 6 a 8 a menos.
  • No PSOL, sobraram puxadoras de voto — Erika Hilton, com cerca de 1,6 milhão, e Sâmia Bomfim, com quase 600 mil —, mas faltaram candidatos na “rabeira” com a votação mínima, e os votos excedentes não elegeram ninguém.
  • No PT, o contrário: nomes como Paulo Teixeira e o ex-presidente do partido Rui Falcão tiveram mais de 100 mil votos e não entraram, por falta de puxadores.
  • O recado da urna, para Beto Vasques: “federar é preciso”. Seria uma aliança geracional — jovens mulheres nativas digitais puxando votos e trazendo a reboque a velha guarda do PT, com sua experiência de governo —, desde que feita com generosidade, não “a fórceps”.
  • A direita e a extrema direita não avançaram sobre os votos da esquerda, e sim sobre os do centrão e da direita tradicional — de forma organizada, enquanto a esquerda saiu fraturada em três frentes.

Contexto: federação, quociente e Cláusula de barreira

  • Federação partidária: partidos que disputam como uma só legenda e precisam ficar juntos por, no mínimo, quatro anos — o “casamento com duração mínima”, nas palavras de Natuza.
  • Quociente eleitoral: Natuza fala em “coeficiente”, uma “nota mínima para passar de ano”. O quociente (votos válidos divididos pelas vagas) define quantas cadeiras cada partido ou federação conquista; para ocupar uma delas, o candidato ainda precisa ter votação nominal de pelo menos 10% do quociente. Essa exigência individual explica o caso do PSOL; o do PT é de cadeiras insuficientes para a lista.
  • Cláusula de barreira: a federação PSOL–Rede passou do piso nacional (4,89% dos votos válidos para deputado federal), mas teve ao menos 1,5% dos votos em apenas oito estados, quando eram necessários nove — e ficou sem acesso pleno ao fundo partidário e ao tempo de rádio e TV.

Mensagens desalinhadas

  • Jones Manoel (PSOL-PE) faz apoio crítico a Lula pela esquerda; Tabata Amaral (PSB-SP), pela direita. No bolsonarismo, “gostando-se mais, gostando-se menos”, ninguém joga pedra em Jair durante a campanha — o que Beto Vasques chama de maturidade política.
  • Uma federação pode abrigar sensibilidades diferentes, mas na campanha precisa de alinhamento de mensagens-chave: do que falar e em que momento. Não dá para um falar do fim da escala 6x1 enquanto outro fala em acabar com as bets.
  • O bolsonarismo também viveu uma “guerra civil” no começo do ano pelo espólio de Jair Bolsonaro, mas chegou unido à urna.

O centrão diante do PL

  • Para os políticos tradicionais do centrão: “se digitalizam ou vão virar os mico-leões-dourados da política, fadados à extinção”.
  • A Cláusula de barreira cada vez mais alta reduz o número de partidos e empurra as legendas para Federação partidária. Somada à ascensão dos nativos digitais, ela explica por que o PL cresceu à custa de MDB, PSD, União Progressista (Partido União Brasil e PP) e Republicanos.
  • A polarização afetiva, até aqui mais presente na sociedade, começa a se reproduzir no Parlamento.
  • Depois do 1º turno, esses partidos foram “beijar a mão do algoz”: a União Progressista declarou apoio a Flávio, e Ronaldo Caiado, candidato do PSD, também. Romeu Zema fez o mesmo, mas o Novo é, para Beto Vasques, um “partido satélite” do PL, que saiu fortalecido.
  • O pecado original: Gilberto Kassab, “o oráculo da política”, errou ao lançar Ronaldo Caiado, um “genérico” de Flávio Bolsonaro. Entre o genérico e o original, o eleitor fica com o original: se é para anistiar os excessos do bolsonarismo, vota-se no bolsonarismo.

As duas almas do PL

  • Valdemar Costa Neto percebeu cedo a polarização e o peso dos nativos digitais. Em vez de ser engolido aos poucos pela extrema direita, fez mutualismo — relação entre espécies diferentes em que as duas saem ganhando.
  • O PL hoje tem duas almas: uma de centrão “puro-sangue” e outra que é o Partido Digital Bolsonarista, conceito formulado por Marcos Severino Nobre no Cebrap, com quem Beto Vasques diz ter colaborado.
  • Por que os nativos digitais ainda não tomaram o partido:
    • Saber-fazer: operar a máquina partidária é difícil, e Valdemar Costa Neto conhece todos os truques. Quando Bolsonaro tentou criar o próprio partido, não conseguiu; Valdemar “saiu da suíte e deixou a suíte pro Jair”. Michelle Bolsonaro aprende fazendo no PL Mulher, implantando o partido no território.
    • Apetite: o bolsonarismo despreza as instituições, e assumir uma burocracia partidária vai quase contra o seu desejo; prefere fazer política nas redes.

A lógica do influenciador

  • Natuza Nery cita um estudo publicado na revista Electoral Studies sobre o TikTok na eleição alemã: as contas de políticos individuais engajam muito mais do que os canais oficiais dos partidos.
  • Para Beto Vasques, há uma adequação sociotécnica da comunicação do mundo dos negócios para a política: o manual é o mesmo do influenciador. Quem lança um curso on-line ouve do social media que precisa vender a pessoa, não o curso. O algoritmo é desenhado para privilegiar a pessoa antes do projeto, o que fortalece a figura individual e enfraquece o projeto político.
  • Exemplo alemão: Ulrich Siegmund, de 35 anos, cabeça de chapa da AfD na Saxônia-Anhalt e um dos políticos mais seguidos no TikTok do país; o partido teve 43,8% na eleição estadual de 6 de setembro de 2026.
  • O fenômeno começa a chegar ao Executivo: Cleitinho (Republicanos), nativo digital, foi eleito governador de Minas Gerais, o segundo maior colégio eleitoral do país, no 1º turno, com mais de 55% dos votos válidos.
  • Troca-se a lógica da base militante pela da audiência, muito mais fluida.
  • A política de rua não acabou, mas perdeu relevância: “um pé na rede, um pé na rua”. A mobilização territorial continua importante, mas a comunicação digital é igual ou mais importante.
  • Ana Elisa Santos Silva (PT-MG), de 21 anos, teve 524.219 votos, a segunda maior votação de Minas, atrás de Nikolas Ferreira, e é a mulher mais jovem eleita deputada federal. Depois de cobrar mudanças na comunicação digital do PT, encontrou-se com Lula, que posou para selfies com os eleitos da esquerda.
  • Segundo Beto, Lula, que se gabava de não ter celular, foi comprar um depois do 1º turno. Um trecho de arquivo resume o desafio: Lula é um contador de histórias, e as redes exigem histórias de 15 segundos.
  • A saída, para Beto, passa por federações, frentes amplas generosas e um “encontro harmonioso de culturas” entre a política tradicional e os influenciadores — o que Valdemar fez no PL e outros partidos não conseguiram.

💭 Minhas impressões

Me parece claro que é necessário que as bases políticas da esquerda começem a movimentar de forma mais efetiva os meios digitais. As Eleições Presidenciais de 2026 parece que sedimentaram a relação de influenciadores digitais com a política. Algo que venho pensando é que a estrutura de atuação política no meio digital pode ficar distante das estruturas políticas tradicionais. Isso não só dá mais abertura mas também abre caminho para uma maior flexibilização das leis que deveriam existir para equilibrar o jogo político. No fim, parece que aqueles partidos que tiverem maior movimentação em redes sociais, que tenham mais figuras emblemáticas e que sejam mais personalistas é que vão ganhar eleições. Isso pode fazer com que cada vez mais as discussões sejam identitárias e não de projetos e definições que realmente mudariam a atuação do Brasil.


📚 Referências e Fontes

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🌐 Referências Externas