🎧 Meta, canais do WhatsApp e o TSE na reta final
Em poucas palavras
Entrevistada: Patrícia Campos Mello, repórter da Folha de S.Paulo.
A Folha revelou a minuta de uma resolução do TSE que bloquearia os canais políticos de WhatsApp com mais de 200 mil seguidores nas 48 horas anteriores ao 2º turno das Eleições Presidenciais de 2026. O texto foi compartilhado entre o presidente do tribunal, Kassio Nunes Marques, e o vice, André Mendonça. Depois da reportagem, Nunes Marques se distanciou da proposta; Mendonça disse que ela depende de deliberação da corte. O bloqueio atingiria sobretudo o canal Exército do Lula, de André Janones, que passou dos 7,4 milhões de inscritos.
O episódio também analisa o papel da Meta na eleição: mensagens internas obtidas pela Folha mostram que funcionários admitiram falhas que prejudicaram as contas de Lula, enquanto contas de Flávio Bolsonaro recebiam recomendações do algoritmo, o que o TSE proíbe.
📝 Notas e Insights
A minuta dos canais de WhatsApp
- A proposta: bloquear canais de WhatsApp com mais de 200 mil seguidores nas 48 horas anteriores à eleição. A minuta foi redigida por André Mendonça, que equipara canal a impulsionamento de conteúdo eleitoral, vedado nesse período.
- A crítica: uma nota técnica de 110 juristas e líderes da sociedade civil, enviada ao TSE, diz que a equiparação é um absurdo. No canal ninguém paga para amplificar nada e ninguém recebe conteúdo que não pediu: as pessoas se inscrevem para recebê-lo, ao contrário do impulsionamento, que atinge quem não segue a conta. Para os signatários, mudar a regra a quatro dias da eleição desequilibra a disputa.
- O combinado anterior: a ministra Estela Aranha, do TSE, disse à jornalista Thais Bilenky, do UOL, que os ministros haviam acertado na semana anterior que a Meta avisaria o tribunal sobre a criação de canais com muitos seguidores nas 48 horas finais, para evitar desinformação. A minuta teria mudado o acordo no meio do caminho.
- O destino: Kassio Nunes Marques disse que não apoia mudar regras tão perto da eleição e que não pautaria o tema; André Mendonça respondeu em nota que a decisão não era individual e será deliberada. Para Patrícia, ele não desistiu da ideia, mas quem decide a pauta é o presidente.
- Quem seria mais afetado: o canal Exército do Lula, organizado por André Janones, tem mais de 7,4 milhões de inscritos; a Tropa do Flávio tem 2 milhões e engajamento menor. Entre os dois, o bloqueio pesaria mais sobre a campanha de Lula.
O Exército do Lula e a Justiça Eleitoral
- Segundo a repórter, Kassio Nunes Marques e André Mendonça têm estado alinhados e acatado vários pedidos da campanha de Flávio.
- Nunes Marques mandou tirar o canal do ar primeiro por conter conteúdo já julgado desinformativo, que a assessoria de combate à desinformação do TSE não encontrou; depois, por falta de declaração ao tribunal. A campanha do PT pediu então a mesma medida para a Tropa do Flávio, que também não estava declarada. O canal ficou cerca de 24 horas fora do ar, até Nunes Marques autorizar o restabelecimento antecipado.
- A campanha de Flávio também pediu a cassação da chapa de Lula por uso irregular de WhatsApp. Na ação, acusa Janones, Lula e Geraldo Alckmin de abuso de poder político e econômico, questiona o uso de R$ 1,3 milhão do fundo eleitoral em impulsionamento de publicações e pede a remoção de 26 postagens.
- Mudança na campanha de Lula: até o 1º turno, a estratégia digital era fraca, com muito menos gasto em impulsionamento na Meta que a de Flávio, reflexo da desconfiança da esquerda com as redes. No 2º turno, deputados eleitos como Ana Elisa abraçaram a campanha, e a percepção interna é de que o canal de Janones mudou o tom. Um pesquisador da Universidade Federal Fluminense, ouvido pela equipe de podcasts, avalia que a campanha de Flávio responde hoje mais às criações orgânicas dos apoiadores de Lula do que às peças oficiais do PT.
As falhas da Meta
- Anúncios: em 9 de outubro, a conta de anúncios de Lula ficou quase 24 horas sem poder impulsionar certo tipo de anúncio. A estimativa é de que 1,3 milhão de pessoas deixaram de ver os anúncios. Em 7 de outubro houve um problema global que também afetou Flávio, mas por menos tempo.
- Recomendação algorítmica: a regra do TSE proíbe recomendar contas de candidatos. Mesmo assim, buscar “Flávio” sugeria Flávio Bolsonaro, mas buscar “Lula” não sugeria Lula, e buscar “exército do Lula” nos canais de WhatsApp recomendava a Tropa do Flávio.
- Quantificar é impossível: o algoritmo é uma caixa-preta (ver Sistemas de Caixa-Preta), e só a própria empresa sabe o efeito. As regras do TSE não preveem punição pelo que já ocorreu: a campanha de Lula pede compensação, como impulsionamentos, e deve pedir a cassação da chapa de Flávio.
- A leitura de Patrícia: cassação de chapa raramente acontece, e ações assim servem mais para deixar a Meta atenta. Falhas técnicas são comuns e atingem todos; não dá para afirmar interferência deliberada, mas as mensagens internas mostram que os problemas admitidos atingiram mais Lula. A campanha de Flávio também foi à Justiça, alegando prejuízos e contas inautênticas a favor de Lula.
- Conselho de supervisão: o órgão independente da Meta, pago por ela e sem poder vinculante, apontou falhas recorrentes na moderação de conteúdo eleitoral no Brasil. Patrícia o lembra como “um tapinha na mão”, já que em 2023, no caso do 8 de janeiro, decidiu que a empresa não cumpriu as próprias regras ao deixar no ar por 20 dias um post que incitava a invasão do Congresso.
- Recomendação a eleitos: em ofício às plataformas, Kassio Nunes Marques liberou a recomendação algorítmica de perfis e posts de candidatos eleitos no 1º turno, depois de políticos bolsonaristas pedirem a medida, segundo a Folha.
O alcance atípico de Nikolas Ferreira
- Relatórios do Sleeping Giants Brasil e do Democracia em Xeque apontam indícios de amplificação algorítmica atípica dos vídeos de Nikolas Ferreira no Instagram: um mesmo vídeo teve mais de 30 milhões de visualizações lá e menos de 1 milhão no TikTok, e o deputado supera em visualizações perfis de estrelas pop com muito mais seguidores. A Meta não se manifestou à Folha.
- Sem transparência nem regulação, não há como comprovar a causa. Os institutos de pesquisa mapeiam e mostram as amplificações atípicas, mas, nas palavras de Patrícia, “nunca vai ter um batom na cueca”.
- Ver também Social media busca maximizar engajamento.
O monopólio da propaganda digital
- O Google deixou de vender anúncios políticos, e o Kwai tem restrições e público menor. Na prática, a Meta é a única fornecedora: já recebeu R 64 milhões e o PT, R$ 38 milhões.
- Para Patrícia, isso é um risco para a democracia: a fiscalização de uma empresa que concentra a propaganda digital fica difícil sem transparência. O gasto menor da esquerda explica em parte a diferença de alcance, mas não as amplificações atípicas.
- Além disso, o NetLab identificou anúncios pagos do exterior, o que a lei veda, e anúncios de propaganda negativa, que também não são permitidos.
Outras notícias do episódio
- A pesquisa Quaest mostra Flávio com 45% e Lula com 44%, empate técnico dentro da margem de 2 pontos. Na espontânea, os dois têm 40% e os indecisos passaram de 7% para 14%. A rejeição a Lula caiu de 53% para 47%, e a de Flávio oscilou de 54% para 52%. Foram ouvidas 2.154 pessoas, de sábado a terça-feira.
- Flávio disse que aceitaria o desafio de Lula de abrir os sigilos fiscal e telefônico dele e da família, caso Lula concorde com uma lista de exigências. Na terça, a campanha de Lula oficializou no TSE a proposta de abrir os dele e os de familiares diretos, se Flávio fizer o mesmo.
Para acompanhar
- Se André Mendonça leva a minuta dos canais de WhatsApp ao plenário do TSE.
- A ação da campanha de Lula contra a Meta e o pedido de cassação da chapa de Flávio.
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📚 Referências e Fontes
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