🎧 Flávio nos EUA e o bolsonarismo à distância

Em poucas palavras

Entrevistadas: Vera Magalhães, colunista do jornal O Globo e âncora e comentarista da Rádio CBN, e Isabela Kalil, coordenadora do Observatório da Extrema Direita e autora de Política Sintética e Cartografia da Extrema Direita.

Derrotado por Lula no segundo turno, o senador Flávio Bolsonaro (PL) cruzou a fronteira com a Argentina na noite de terça-feira (27), embarcou num jato particular para o Equador e chegou a Miami na quarta (28), apesar da ordem de Alexandre de Moraes para entregar os passaportes e não deixar o país. Dos Estados Unidos, divulgou uma carta em que alega fraude eleitoral, sem provas, e se apresenta como o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”, expressão trocada depois por “líder”.

No O Assunto desta quinta-feira (29), Victor Boyadjian conversa com Vera Magalhães sobre o discurso golpista e o futuro da direita sem a família Bolsonaro no país, e com Isabela Kalil sobre a articulação internacional da extrema direita em torno de Donald Trump e Javier Milei.


📝 Notas e Insights

A trama da fuga

  • Na segunda-feira (26), depois de visitar o pai, Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar por tentativa de golpe, Flávio disse ter sido intimado a entregar os passaportes e proibido de deixar o país. Afirmou que nunca pensou em sair e chamou a medida de tentativa de intimidação. Segundo ele, a decisão de Moraes se apoiou na fala de Eduardo Bolsonaro, em 23 de outubro, de que o irmão deveria deixar o país se perdesse.
  • Por trás da decisão está o inquérito sobre lavagem de dinheiro e evasão de divisas que envolve o advogado Willer Tomaz, amigo do senador. A PF achou num hangar do aeroporto de Brasília uma sala secreta que, suspeita, era usada pelo advogado para guardar dinheiro vivo, e e-mails em que Flávio aparece como usuário master da conta bancária de uma empresa dele registrada na Ilha da Madeira, em Portugal. No mesmo endereço está a Cathedral, que pagou viagens de férias da família à Europa em maio de 2025 e é dona de uma casa de apostas esportivas.
  • Na madrugada de terça (27), o site argentino Infobae noticiou que ele teria atravessado a fronteira. Quando o governo americano confirmou que daria vistos a ele e à família, a fuga foi dada como certa, e aliados como o senador Rogério Marinho, coordenador da campanha, disseram-se surpresos. Flávio, porém, ainda estava no Brasil.
  • Segundo a Direção Nacional de Migrações da Argentina, ele, a mulher, Fernanda Bolsonaro, e as duas filhas entraram pela Ponte Internacional Tancredo Neves, entre Foz do Iguaçu (PR) e a província de Misiones, às 22h50 de 27 de outubro, com documentação válida. Às 23h30, embarcaram num voo privado da Baires Fly com destino declarado a Guayaquil, no Equador.
  • O avião decolou à 0h20 de quarta (28), chegou ao Equador às 5h30, teve a rota atualizada para Miami e pousou às 10h20, horário de Brasília. A aeronave é ligada ao empresário Sergio Mastropietro, investigado na Argentina por suspeita de lavagem de dinheiro público, num escândalo que chegou a Karina Milei, irmã do presidente.

A carta

  • A primeira versão, publicada às 17h19 de quarta, tem pouco mais de duas páginas e um brasão, e apresenta Flávio como “verdadeiro presidente eleito”. Pouco depois, a expressão foi trocada por “líder do Brasil”. Ele agradece a Javier Milei, que o ajudou a sair do país, e a Trump.
  • A alegação de fraude se apoia na decisão do ministro Cristiano Zanin que prorrogou a votação em duas horas, pedida também pela campanha do próprio Flávio. Segundo o TSE, pouco mais de 34 mil votos foram registrados depois das 17h; a vantagem de Lula foi de 4,43 milhões.
  • O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, indicado ao STF por Jair Bolsonaro, afirmou em nota que as eleições transcorreram “dentro da mais absoluta normalidade”.

Vera Magalhães: o discurso golpista

  • Para Vera, a carta é “um escárnio”. As mesmas urnas e o mesmo TSE deram ao PL as maiores bancadas da Câmara e do Senado e seis governadores, além da vantagem de Flávio no primeiro turno. O discurso serve para manter mobilizada a parcela mais radical do eleitorado e para justificar uma fuga da Justiça.
  • Eleito, ele teria quatro anos de trégua nas investigações dos casos Dark Horse e Willer Tomaz; derrotado, perde o foro privilegiado.
  • O discurso de fraude não cola no Brasil: todos os partidos reconheceram a vitória de Lula. Para Vera, Trump terá pouco tempo para os Bolsonaro diante das eleições de meio de mandato, em que as pesquisas apontam derrota republicana. O grave é que dois governos, o americano e o argentino, facilitem a fuga de um investigado e endossem a tese de fraude.
  • Liderar a oposição à distância só seria possível se as lideranças da direita não tivessem coragem de se dissociar da família. A fala de Eduardo ao podcast americano Louder with Crowder, antes da eleição, mostra que a família sabia das denúncias contra o irmão. Dono de 59 milhões de votos, Flávio poderia liderar a oposição, mas fugiu um dia depois de dizer que não sairia do país.
  • A tese de perseguição deve ecoar só no eleitorado mais radicalizado e na ala mais ideológica do Congresso, como Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato e, no Senado, Deltan Dallagnol. Vera duvida que governadores e presidentes de partido, eleitos pelas mesmas urnas, adiram a ela. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, disse entender a indignação de Flávio, mas que o caminho é respeitar o resultado.

O PL e a costura de Lula

  • Valdemar Costa Neto deve tudo ao clã: o PL quadruplicou de tamanho entre 2018 e 2022 e continuou crescendo. Para Vera, ele deve seguir “dando uma no cravo, uma na ferradura”. Segundo reportagem citada no episódio, Valdemar visitaria Jair Bolsonaro e se articulou com Michelle Bolsonaro, senadora eleita, para um “freio de arrumação” no partido, onde parte dos filiados se diz abandonada.
  • Os partidos do centrão que apoiaram Flávio no segundo turno podem compor com Lula. A federação União Brasil–PP já sinalizou, e PSD, de Gilberto Kassab, MDB e Podemos estão ao alcance. Até o Republicanos entra na conta: Lula está disposto a apoiar a reeleição de Hugo Motta e tem o ministro Silvio Costa Filho, do partido, entre os conselheiros políticos.
  • Para Vera, Lula precisa evitar o “PT-centrismo” na articulação política e entender que venceu menos pelos méritos do governo do que por uma reação de múltiplas forças ao bolsonarismo.

O Supremo e um possível acordão

  • A pauta de impeachment de ministros do STF depende do bolsonarismo, mas Vera vê sinais de acomodação: Davi Alcolumbre, presidente do Senado, acena com perdão ou anistia a Jair Bolsonaro para distensionar o ambiente.
  • Pesa o fato de Moraes e o próprio Alcolumbre estarem na berlinda no Caso Master, assim como Kassio Nunes Marques. Com tanta gente enrolada, cresce a chance de um “acordão”, e não está claro se o governo usaria o capital do segundo turno para barrá-lo.

Isabela Kalil: a articulação global da direita

  • A relação entre as direitas radicais do Brasil e dos EUA é antiga e remonta a Olavo de Carvalho, que se apresentava como autoexilado na “terra da liberdade”. Com Trump, virou um processo de internacionalização da extrema direita, articulado em eventos formais como a CPAC, que, segundo ela, reúne Trump, Flávio, Milei e Nayib Bukele numa “frente pela liberdade”.
  • Milei ainda não reconheceu a vitória de Lula, ao contrário de outros líderes da direita na região. Para Kalil, ele é próximo de Trump, quase um porta-voz dele em fóruns como a ONU, e também de Flávio: foi co-protagonista da convenção que lançou a candidatura do senador. Sem a ajuda de Milei, Flávio não teria chegado aos EUA.
  • O negacionismo eleitoral, que desacredita sem provas o resultado das urnas quando o candidato perde, é um dos traços que definem a extrema direita e a direita radical. Trump é quem melhor trabalha com ele, como mostrou o ataque ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021.
  • Com uma vitória de Flávio, só o México faria contraponto relevante a Trump na América Latina. Para Kalil, desde a captura de Nicolás Maduro, Trump mostra disposição de interferir na região; a vitória de Lula, que costuma dar o tom político regional, pode fortalecer uma inflexão à esquerda.
  • Mesmo mantendo relações amigáveis com Lula, Trump tem um projeto alinhado ao bolsonarista e ganha ao se apresentar como acolhedor de “dissidentes políticos”, termo que o governo americano já usou em documentos sobre o Brasil.

O bolsonarismo sem os Bolsonaro

  • Kalil faz uma ressalva: Trump não terá constrangimento em abandonar a família Bolsonaro se ela não oferecer perspectiva de poder, e mostra desconhecer o Brasil — em entrevistas, não sabia o nome dos candidatos.
  • A fuga deve enfraquecer a família, mas não necessariamente o projeto bolsonarista, já que o Congresso foi eleito na esteira dele, com promessas como o impeachment de ministros do STF. Ela acredita que esses políticos podem simplesmente abandonar a família.
  • Entre os turnos, a campanha criou um site feito com inteligência artificial para monitorar os apoios a Flávio. Segundo o próprio site, metade ou pouco mais dos políticos do PL e aliados deixaram de fazer campanha para ele no segundo turno. A dependência é de votos, não de lealdade, sobretudo se a família tentar ditar as regras da direita a partir dos EUA.

💭 Minhas impressões


📚 Referências e Fontes

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