🎧 O golpismo e o risco diplomático na fuga de Flávio Bolsonaro
Em poucas palavras
Entrevistado: Guilherme Casarões, professor da Florida International University.
Dos Estados Unidos, para onde fugiu, o senador Flávio Bolsonaro (PL) divulgou nesta quarta-feira (28) uma carta golpista em que se diz “o verdadeiro presidente eleito do Brasil”. Minutos depois, o candidato derrotado por uma diferença de mais de 4,4 milhões de votos trocou “presidente eleito” por “líder”. No texto, ele agradece a Donald Trump e Javier Milei; faz acusações sem provas ao processo eleitoral; e diz que vai, dos EUA, liderar a oposição.
O senador fugiu do Brasil na noite de terça (27), depois de um dia de versões falsas disseminadas por aliados sobre seu paradeiro. Com a mulher e as duas filhas, ele pegou um avião na Argentina, fez uma escala no Equador e pousou em Miami. Há a expectativa de que ele possa dar uma entrevista coletiva nesta quinta (29).
O Café da Manhã analisa os impactos da chegada de Flávio Bolsonaro aos EUA e a participação de governos de outros países na fuga. O professor de estudos brasileiros da Florida International University Guilherme Casarões discute os impactos para o Brasil e as possíveis reações do governo Lula.
📝 Notas e Insights
A rota da fuga
- Ao longo de terça (27), aliados diziam que Flávio estava sumido, depois em voo, depois que teria pousado, ido via Venezuela ou encontrado Eduardo em Miami. Enquanto isso, ele passou o dia no Brasil. Segundo o governo argentino, só cruzou a Ponte Internacional Tancredo Neves, entre Foz do Iguaçu e Puerto Iguazú, no fim da noite.
- Segundo a Folha, a família não passou por posto de controle da PF, exigência que não existe para brasileiros na fronteira terrestre. Na entrada da Argentina, o senador apresentou o passaporte italiano.
- O jato, o mesmo que aparecera no noticiário na terça, recebeu a família em Puerto Iguazú na noite de terça, desviou do espaço aéreo brasileiro para evitar uma interceptação da Força Aérea, reabasteceu no Equador e chegou a Miami às 10h20 de quarta, horário de Brasília.
- Para entrar nos EUA, ele usou o passaporte diplomático brasileiro, que deveria ter sido entregue às autoridades; segundo a PF, descumpriu as medidas de Alexandre de Moraes que o proibiam de sair do país. A família desembarcou escoltada por agentes de segurança, com um registro humanitário que, segundo o episódio, autoriza a permanência por um ano.
- O avião é operado pela Baires Fly, ligada ao empresário Sergio Mastropietro, investigado na Argentina por suspeita de integrar um esquema de lavagem de dinheiro desviado da Agência Nacional de Deficiência (ANDIS), escândalo que chegou a Karina Milei, irmã do presidente.
A carta e as reações
- Trump disse que aprovaria a entrada: “são pessoas decentes e as eleições foram estranhas”. Perguntado depois sobre a carta, disse que não vai se envolver no Brasil. Ele tem ecoado, sem provas, suspeitas sobre a vitória de Lula e repetido que não tomou partido.
- A carta foi divulgada primeiro por aliados, entre eles o blogueiro Paulo Figueiredo. A primeira versão trazia um brasão com o nome antigo do país, “Estados Unidos do Brazil”, com z; na última, “verdadeiro presidente” virou “líder”.
- Kassio Nunes Marques, presidente do TSE, reafirmou em nota que a votação transcorreu com normalidade e respeito às leis e que questionamentos dentro do devido processo legal serão respondidos.
- O pastor Silas Malafaia disse que foi “corretíssimo” fugir; aliados afirmam que o senador seria perseguido por Moraes se ficasse no Brasil.
- Flávio é alvo de dois inquéritos no STF: um, relatado por Moraes, sobre lavagem de dinheiro envolvendo uma casa de apostas do advogado Willer Tomaz; outro, relatado por André Mendonça, sobre o financiamento do filme Dark Horse com dinheiro de Daniel Vorcaro, do Banco Master.
O que o Brasil pode cobrar
- Para Casarões, é justificável pedir esclarecimentos à Argentina, ao Equador e aos EUA. Como não há crime aparente nem mandado de prisão, porém, dificilmente o governo convence algum deles de que caberia uma extradição; o máximo seria uma expressão de descontentamento.
- A fuga parece um plano B elaborado havia tempo para o caso de derrota, precipitado pela decisão de Moraes de recolher os passaportes.
- Com o governo em transição para o quarto mandato e ocupado com o pós-eleição, caçar culpados seria contraproducente e alimentaria a narrativa de perseguição política, que convém ao senador.
O papel da Argentina
- O episódio cita suspeitas de envolvimento de Santiago Caputo, estrategista de Milei, e lembra que Milei não parabenizou Lula pela reeleição, ao contrário de Daniel Noboa, presidente do Equador.
- Casarões acha improvável que as relações mudem: a rapidez com que os líderes latino-americanos felicitaram Lula mostra o peso do Brasil na região. O caso de Milei é excepcional, uma rusga pessoal com Lula desde a eleição argentina de 2023, que escalou na campanha brasileira — como quando Milei faltou a uma reunião do Mercosul para ficar com os bolsonaristas na CPAC, a Conferência de Ação Política Conservadora.
- Para ele, a Argentina está “muito envolvida”: além de Caputo, a primeira notícia sobre o avião perto da fronteira veio do Infobae, portal com ligações com grupos liberais, o que sugere uma estratégia de desvio de atenção.
Os EUA e Marco Rubio
- O que mais preocupa Casarões é a relação com os EUA. Flávio se torna um exilado político autoproclamado, como Eduardo, o que, como se viu há um ano e meio, pode contaminar as relações entre os dois Estados.
- A extrema direita é transnacional, com apoio cruzado entre grupos da Argentina, do Brasil, da Colômbia, da oposição venezuelana, dos EUA, da Espanha e de Portugal. A questão central é se houve apoio oficial de governos estrangeiros à fuga, o que reforçaria a narrativa de que o Brasil “está virando uma Venezuela”.
- Segundo a Folha, o governo Trump sabia do plano e participou dele por meio do Departamento de Estado. Para Casarões, isso pouco muda as eleições de meio de mandato, porque o Brasil é tema de nicho nos EUA, mas terá consequências no médio e no longo prazo para o bolsonarismo: agora há dois Bolsonaro nos EUA.
- Eduardo atua na articulação com lideranças da extrema direita e tem os ouvidos de pessoas da Casa Branca. Flávio deve entrar nessa esteira, com Paulo Figueiredo, e, se quiser reativar a tese de fraude, terá interlocutores dispostos a levá-la a uma decisão política concreta.
- Marco Rubio teria assumido a articulação também para preservar Trump, que se envolve seletivamente nos temas internacionais conforme o ganho político — e, com o Brasil, esse ganho é pequeno. Para Rubio, o Brasil cai na “vala comum” do combate ao comunismo na América Latina, cujo pano de fundo é reduzir a influência chinesa, numa leitura binária moldada pela relação com Cuba.
- Mas, lembra Casarões, Lula não é Maduro, Chávez nem Fidel Castro, e Flávio não é María Corina Machado nem Juan Guaidó.
A desinformação como método
- Para Casarões, a desinformação está no cerne do bolsonarismo, que não existiria sem ela nas redes sociais e no WhatsApp. Desta vez, parte dos próprios aliados foi enganada, porque o paradeiro de Flávio ficou nas mãos de poucos.
- Foi uma dupla estratégia. De um lado, confundir a PF e a Justiça, que passaram a achar que ele já estava fora do país. De outro, lançar a narrativa de perseguição, que mobiliza as redes desde segunda à noite e serve de cortina de fumaça para o pedido frustrado de anulação da eleição e para a discussão sobre a decisão de Moraes, que gerou relatos de descontentamento no PT.
A imagem da eleição no exterior
- A maioria dos observadores internacionais já entende o jogo, e pouca gente vai comprar Flávio como vítima de um regime ditatorial; a narrativa talvez sirva a grupos da Flórida, onde paira o espectro da Venezuela. Para Casarões, quem sai manchado é o próprio Flávio, que em dois dias e meio abandonou um país onde teve quase 60 milhões de votos.
- Como sugeriu Octavio Guedes na GloboNews, Flávio concorreu livremente, venceu o primeiro turno, o partido dele elegeu as maiores bancadas do Congresso e governadores, e a madrasta e o irmão foram eleitos, o que torna difícil emplacar o discurso de ditadura.
- As tentativas de provar fraude — “a matemática não fecha”, a pausa na apuração do primeiro turno, a prorrogação do horário de votação — não sobrevivem, diz ele, “a uma pesquisa no Google”. A prorrogação foi pedida também pela campanha de Flávio, para 17 municípios de São Paulo, Paraná e Santa Catarina afetados pela chuva.
Lula, a virada e a mobilização
- A imagem do Brasil como farol do campo progressista saiu reforçada: na Espanha e na França surgiram exércitos digitais no WhatsApp nos moldes do que André Janones fez na campanha de Lula.
- Para Casarões, Lula fez “uma espécie de milagre político” ao virar a eleição, com 10 milhões de votos a mais que no primeiro turno. Pesaram duas mudanças: uma estrutura de mobilização em rede, campo em que a extrema direita sempre foi competente, e uma retórica voltada para o presente e o futuro, não para o legado.
- Diante da dificuldade de formar maioria no Congresso, Lula sinaliza usar essa estrutura como instrumento de barganha e de mobilização. O único precedente, com sinais trocados, é o primeiro ano de governo de Jair Bolsonaro, antes da pandemia, quando a pressão popular ajudou a avançar pautas.
Contexto: as felicitações a Lula
Um trecho do episódio reúne reações à vitória: a presidente da Comissão Europeia disse que democracia e multilateralismo venceram, mesmo tom da mexicana Claudia Sheinbaum; Emmanuel Macron falou em um mundo mais justo; Narendra Modi falou em “vitória notável”; Cyril Ramaphosa chamou Lula de “querido irmão”; a China mandou felicitações protocolares, e o governo russo disse que continua contando com o Brasil.
O risco de sanções
- Para Casarões, Flávio foi para os EUA também para ficar perto do governo americano e influenciar o que ele faz em relação ao Brasil. A expectativa é que Washington siga sem reconhecer o resultado, o que pode gerar problemas diplomáticos, por exemplo na posse, e até sanções ou um novo tarifaço.
- A pergunta é “pressionar para quê?”. O Brasil é estratégico para os EUA e pesa na economia americana, e Lula nunca recusou negociar temas de interesse mútuo. Fora o interesse estreito da família Bolsonaro, ele não vê ganho americano numa relação conflagrada: espera ameaças e sinalizações, como no último ano e meio, mas nada que corte relações.
Caso Master: o primeiro indiciamento
- Na parte final, o episódio informa que a PF concluiu o primeiro inquérito do Caso Master e indiciou, entre outros, Daniel Vorcaro, apontado como líder da organização criminosa, o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB) Paulo Henrique Costa e o ex-sócio de Vorcaro Augusto Lima, por suspeita de crimes financeiros na venda de carteiras de crédito ao BRB. O relatório, de cerca de 700 páginas, foi enviado ao STF.
- Segundo a PF, entre julho de 2024 e outubro de 2025 o Master transferiu ao BRB cerca de R 12,2 bilhões sem comprovação de que existiam. As carteiras vinham da consultoria Tirreno e teriam origem em consignados feitos por associações de servidores públicos da Bahia.
- A PF pediu mais 60 dias para concluir perícias. As defesas de Vorcaro e de Costa negam irregularidades.
💭 Minhas impressões
📚 Referências e Fontes
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🌐 Referências Externas
- O golpismo e o risco diplomático na fuga de Flávio Bolsonaro • Café da Manhã
- Baires Fly: aérea que teria transportado Flávio aos EUA já levou Milei • CNN Brasil
- Em carta golpista, Flávio se diz presidente; Tarcísio prega respeito às urnas • O Povo
- PF indicia Vorcaro e ex-presidente do BRB por fraudes no caso Master • CNN Brasil