🎧 A rota de fuga de Flávio Bolsonaro
Em poucas palavras
Convidados: Juliana Braga, repórter da GloboNews, e Renato Stanziola Vieira, doutor em direito processual penal, ex-Presidente do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais e sócio-fundador da Kehdi Vieira Advogados.
Na noite de domingo (25), minutos depois de o TSE oficializar o resultado da eleição, a Polícia Federal solicitou ao Supremo Tribunal Federal a apreensão dos passaportes de Flávio Bolsonaro (PL). A decisão foi tomada no inquérito que investiga o senador e o empresário Willer Tomaz por suspeita de lavagem de dinheiro – Flávio também é investigado por lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção no caso do financiamento do filme “Dark Horse”. O senador não entregou os passaportes no prazo determinado pela Justiça e ficou incomunicável até para seus aliados políticos. Na manhã de terça-feira (27), informações desencontradas indicavam que Flávio Bolsonaro havia deixado o Brasil, e a PF acionou o governo argentino sobre uma possível fuga. À tarde, a agência de notícias Reuters foi a primeira a confirmar que Flávio deixou o país em direção aos Estados Unidos. Neste episódio, Victor Boyadjian recebe dois convidados. Primeiro, ele conversa com a jornalista Juliana Braga sobre a rota de fuga de Flávio Bolsonaro. Depois, Victor Boyadjian entrevista o jurista Renato Stanziola Vieira a respeito da situação jurídica do senador.
📝 Notas e Insights
O pedido da PF e a ordem de Moraes
- O TSE confirmou a reeleição de Lula às 21h09 de domingo. Às 21h16, a PF pediu a Alexandre de Moraes a apreensão dos passaportes de Flávio, segundo apuração de Rafael Moraes Moura publicada no blog de Malu Gaspar.
- Moraes cancelou todos os passaportes, inclusive os diplomáticos, e deu 24 horas para a entrega. O prazo venceu às 11h de terça sem que o senador aparecesse. Na decisão, o ministro citou o “expressivo poder econômico” dos investigados e a estrutura para permanência prolongada nos Estados Unidos.
- Dias antes, Eduardo Bolsonaro disse ao podcast americano Louder with Crowder que era a favor de o irmão sair do país se perdesse.
Os dois inquéritos
- Willer Tomaz: o inquérito começou na primeira instância da Justiça Federal do Rio Grande do Sul e, segundo Juliana, deriva da Operação Sem Desconto, sobre o esquema de fraudes no INSS. Investiga lavagem de dinheiro com empresas de apostas e plataformas de pagamento. A PF achou e-mails em que Flávio aparece como usuário master da conta bancária de uma empresa do advogado, além de registros de festas e encontros e de passagens pagas pela Cathedral Holding.
- O jatinho: o Legacy 650 de prefixo PP-NLR levou Flávio, a família e Willer de Fort Lauderdale a Brasília em janeiro de 2025 e meses depois foi usado por Moraes e pela mulher dele, advogada do Banco Master. O avião pertencia a uma empresa ligada a Willer, à PrimeU, que tinha Daniel Vorcaro entre os sócios, e a Laércio Cosentino, fundador da Totvs.
- Dark Horse: aberto em julho, apura lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas no pedido de dinheiro a Daniel Vorcaro para o filme Dark Horse. O relator é André Mendonça; segundo Juliana, o caso está agora no gabinete da presidência do STF, com Edson Fachin.
- Foro: sem novo mandato, Flávio fica sem cargo eletivo a partir de fevereiro, pela primeira vez em 24 anos. O STF decidiu em 2025 que investigações já em curso podem permanecer na corte depois do fim do mandato.
O paradeiro e o vácuo de liderança
- A PF não achou registro de saída nos postos oficiais. O Infobae publicou que ele teria chegado a Puerto Iguazú para seguir a Miami, e a imigração argentina e a Casa Rosada informaram não ter registro da entrada. Depois, aliados disseram que ele ia para os EUA, onde o Departamento de Estado garantiu os vistos.
- Para Juliana, aliados já tinham se decepcionado quando ele não reconheceu o resultado, depois de uma campanha com perfil mais moderado que o do pai. O receio agora é que a ausência dele abra uma disputa entre as lideranças do PL e do bolsonarismo e desperdice o capital político acumulado na eleição.
- O senador Rogério Marinho, coordenador da campanha, disse ter recebido só uma mensagem por volta das 8h e que, na véspera, os dois tinham conversado sobre Flávio liderar a oposição.
A situação jurídica, segundo Renato Stanziola Vieira
- A apreensão de passaporte é medida cautelar do processo penal, que depende de representação da polícia ou pedido do Ministério Público. Descumprir a ordem, seja com o passaporte brasileiro, seja com o italiano, é desobedecer a uma autoridade brasileira e sujeita o investigado a medidas mais graves.
- O cancelamento do passaporte é medida administrativa; no caso do italiano, vira questão consular.
- Ninguém é “foragido” antes de se esgotarem as tentativas válidas de localização. A pergunta certa é se o comportamento do investigado põe em risco a apuração, a instrução criminal ou a aplicação da lei penal.
- As cautelares são escalonadas: o juiz começa pelas menos graves e só chega à prisão preventiva se elas não bastarem. Ao fugir, o senador pode ter criado uma situação de cautelaridade que antes não existia, e trazê-lo de volta dependerá de cooperação entre autoridades centrais.
- O discurso de perseguição é conhecido da família Bolsonaro. Para Renato, a primeira medida deu a ele tempo de reagir juridicamente, inclusive recorrendo aos demais ministros do STF. Ele espera que os próximos passos sigam a ordem jurídica, sem dar palco a manifestações como as dos atos de 8 de janeiro.
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📚 Referências e Fontes
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