🎧 O lulismo no governo Lula 4
Em poucas palavras
Entrevistado: André Singer, professor titular de ciência política da USP, que cunhou o conceito de lulismo e é autor de Os sentidos do lulismo e Impasse: o Brasil diante da onda reacionária, ambos pela Companhia das Letras.
A semana depois do segundo turno teve mais notícias sobre a fuga de Flávio Bolsonaro do que sobre o quarto mandato de Lula, mas o governo articula ministérios e prioridades no Congresso. O equilíbrio fiscal é a principal cobrança do setor econômico.
O Café da Manhã desta sexta-feira (30) discute com Singer a cara do novo governo, o que uma vitória conquistada também nas ruas significa para o lulismo e qual deve ser o papel da oposição.
📝 Notas e Insights
O cenário da transição
- Rafael Fonteles, governador reeleito do Piauí e cotado para um ministério, talvez a Fazenda, disse à Folha que o governo deve ser ousado, com responsabilidade fiscal.
- A meta de 2027 prevê superávit de 0,5% do PIB, cerca de R$ 73 bilhões. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que o governo prepara medidas para buscar o centro da meta, sem dar prazo.
- Até o recesso, o Planalto quer aprovar a PEC da Segurança Pública, o Orçamento de 2027, a medida provisória do fim das bets e indicações para agências reguladoras.
- Edinho Silva, presidente do PT, disse a O Globo que a prioridade é manter a base social mobilizada e que Lula usará essa mobilização para disputar a agenda com o Congresso.
O lulismo fortalecido
- Na definição sintética de Singer, o lulismo é “um programa de combate à pobreza sem confronto com o capital”.
- Daí vem o que ele chama de reformismo fraco: mudanças homeopáticas que, com o tempo, têm efeito estrutural. O exemplo é o salário mínimo, cujo valor real subiu 70% em três mandatos.
- Para ele, o lulismo sai fortalecido. A liderança carismática de Lula, antes mais visível no Nordeste, agora também aparece no Sudeste, onde a relação era mais pragmática.
- A novidade é a “tintura de participação popular”: a mobilização dos trabalhadores fez diferença como em nenhuma eleição anterior. No discurso de vitória, Lula prometeu que o povo participará mais das decisões.
- Singer vê pouco personalismo na vitória. Ele fala em confronto de projetos, com jovens nas ruas disputando o próprio futuro, e na formação de uma nova maioria.
Economia e segurança
- O centro da discussão, diz ele, é obrigatoriamente econômico: sem retomar o desenvolvimento, o que implica alguma reindustrialização, não há como atender às esperanças da maioria.
- Na segurança pública, ele não vê como enfrentar o crime organizado sem grande investimento público.
- Singer contesta a visão, que atribui ao mercado financeiro, de que as contas estão completamente desequilibradas. Reconhece que há limites para o gasto, mas diz que essa leitura serve a uma proposta de fortes cortes.
Congresso e oposição
- O PL chega forte a 2027, com 121 deputados, mas longe da maioria na Câmara de 513 cadeiras. Terá de fazer composições.
- Singer se diz menos pessimista porque Lula aprovou projetos centrais, como a isenção do imposto de renda até R$ 5 mil e o fim da escala 6x1, com votações quase unânimes.
- Marcos Nobre sustenta que o bolsonarismo já independe dos Bolsonaro, tese do Partido Digital Bolsonarista. Singer pondera que, num regime presidencialista, não é fácil separar a extrema direita do bolsonarismo.
- Para ele, Jair Bolsonaro preteriu Tarcísio de Freitas, o candidato natural, em favor de um candidato que a fuga mostrou ser muito fraco. Singer acredita que o ex-presidente quer disputar 2030 e que essa será a grande batalha do PL.
A composição do governo
- A tendência, diz ele, é um governo mais à esquerda, porque a mobilização fortaleceu esse campo dentro da frente democrática que reelegeu Lula. Mas é preciso esperar para ver.
- Singer avalia que Lula 3 foi um governo lulista, de conciliação, sem marca de esquerda, e que Lula não poderia ter ido mais ao centro sem inviabilizar a própria reeleição.
- Ele vê abertura a outros partidos, como o PSB de João Campos e o espaço de Guilherme Boulos.
- Sobre a sucessão, considera cedo para falar em fila. O nome que lhe ocorre é o de Fernando Haddad, e a escolha de Lula afetará a durabilidade do próprio lulismo.
- Para ele, a democracia sai “muito fortalecida” da eleição.
💭 Minhas impressões
📚 Referências e Fontes
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