🎧 Lula reeleito virada inédita e o 4º mandato
Em poucas palavras
Entrevistado: Bruno Boghossian, diretor da sucursal da Folha de S.Paulo em Brasília.
Lula (PT) foi reeleito no 2º turno das Eleições Presidenciais de 2026, em 25 de outubro, com 51,79% dos votos válidos contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (PL). É o primeiro quarto mandato presidencial do país e a primeira vez que o segundo colocado do 1º turno vira a disputa.
No Café da Manhã desta segunda-feira (26), Bruno Boghossian explica o que pesou na virada, o que muda para o PT e para a esquerda, os desafios de governar com um Congresso mais à direita e o que esperar do bolsonarismo, depois que Flávio não reconheceu o resultado.
📝 Notas e Insights
O placar e os ineditismos
- Lula teve 64.256.232 votos e Flávio Bolsonaro, 59.826.041, uma diferença de mais de 4,4 milhões, segundo o TSE.
- Lula ganhou cerca de 10 milhões de votos em relação ao 1º turno e, segundo o episódio, quase 4 milhões a mais que em 2022.
- A abstenção ficou em 19,2%, a menor em 20 anos. Brancos e nulos somaram 3,2%, o menor índice do século.
- Foi a primeira eleição em que o 1º colocado do 1º turno perdeu o 2º.
Como veio a virada
- Segundo Bruno Boghossian, a virada não veio de uma mudança maciça de preferência, mas da capacidade de mobilizar quem não tinha votado em Lula no 1º turno.
- Onde cresceu:
- Na Bahia, cerca de 800 mil votos a mais.
- No Ceará, 500 mil.
- Na Paraíba, 250 mil.
- Em Minas Gerais, mais de 1 milhão.
- No Rio de Janeiro, onde Flávio ganhou 200 mil votos do 1º para o 2º turno, Lula ganhou 900 mil.
- Lula também se saiu melhor em São Paulo do que em 2022 e virou o resultado em 211 cidades.
- Três grupos, na leitura do entrevistado:
- Eleitores que já tinham votado em Lula, mas estavam pouco engajados.
- Eleitores “nem-nem”, para quem a rejeição à volta do bolsonarismo pesou mais que a rejeição ao governo.
- Eleitores à direita de Caiado e Renan Santos que não votaram em Flávio: a queda da abstenção foi desproporcional e não ocorreu entre eleitores de direita.
- Medo e benefícios: a campanha de Lula ativou a rejeição a Flávio, com a memória do governo de Jair Bolsonaro, e associou a candidatura à proteção de benefícios, aposentadorias e do salário mínimo. Flávio falou pouco de economia e deixou espaço para o medo de cortes.
- Datafolha: entre eleitores fora da população economicamente ativa, a vantagem de Lula passou de 6 pontos (51% a 45%) na primeira pesquisa do 2º turno para 14 (54% a 40%) na última.
- Mobilização descentralizada:
- O canal Exército do Lula, de André Janones, teve papel central na mobilização digital.
- Houve também mobilização de ruas, com estudantes, ativistas e deputados eleitos, e uma campanha menos centrada na TV e no marqueteiro.
O que muda para o PT e a esquerda
- O PT aprendeu a tratar a mobilização digital como estrutura política permanente, mesmo fora das eleições.
- A campanha adotou a tarifa zero no transporte público, pauta que deputados eleitos levaram às ruas sem autorização formal. Lula enviou ao Congresso Nacional uma emenda à Constituição com gratuidade nos fins de semana.
- Por ser a última eleição de Lula, a esquerda terá de fazer a transição para novos nomes.
Desafios do quarto mandato
- Economia: crise fiscal contratada, promessas de campanha a financiar e juros altos.
- Supremo Tribunal Federal: o alinhamento com o STF, que marcou o governo, deve ser reconfigurado.
- Congresso: mais à direita do que em 2022, com um centrão decisivo que vai cobrar caro. Um sinal de abertura é o fim da Escala 6x1, aprovada pelo Senado Federal em pleno 2º turno, com Davi Alcolumbre.
- Segurança pública: deve ganhar destaque, com dúvida sobre a redução da maioridade penal e um Ministério da Segurança Pública.
- Palácio do Planalto: Lula quer uma gestão mais profissional e coordenada.
O bolsonarismo depois da derrota
- O bolsonarismo elege parlamentares e governadores, mas esbarra na rejeição quando precisa de maioria nacional. Para o entrevistado, o 2º turno virou um plebiscito sobre o bolsonarismo, como definiu a colunista Mônica Bergamo.
- Segundo o entrevistado, o PT errou ao poupar Flávio por meses, confundindo a fragilidade pessoal dele com a da candidatura.
- Flávio é o principal herdeiro político de Jair, mas fica sem mandato pela primeira vez em 24 anos e é alvo de investigações no STF.
- Eduardo Bolsonaro sugeriu que ele saísse do país. Pode começar a discussão sobre a sucessão no bolsonarismo, com nomes como Michelle Bolsonaro e Tarcísio de Freitas.
A prorrogação da votação e a contestação
- Segundo o episódio, o PT pediu a prorrogação por dificuldades de transporte de eleitores e o PL, por causa de chuvas no Sul e no Sudeste. Às 17h02, Cristiano Zanin determinou que as urnas ficassem abertas até as 19h, apenas onde ainda funcionavam.
- O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, disse que a decisão não alterou o resultado.
- Flávio não reconheceu a derrota e falou em pedir a anulação da eleição. Para Bruno Boghossian, a diferença de mais de 4 milhões de votos e o fato de o PL ter pedido a prorrogação enfraquecem o argumento, que pode esfriar, mas não impedir, a contestação.
- Para o entrevistado, a decisão de Cristiano Zanin criou um tumulto desnecessário, porque saiu quando quase todas as urnas já estavam fechadas.
- Kassio Nunes Marques sinalizou a outros ministros que vai sustentar o resultado.
💭 Minhas impressões
As Eleições Presidenciais de 2026 foram, ao meu ver, surpreendentes. Considerando que o primeiro turno foi morno, sem discussão clara de políticas públicas, modelos econômicos e outros temas importantes, para um segundo turno que também foi marcado, ao meu ver, pela ausência destas pautas de forma clara mas que somaram ai uma visão de rejeição mais forte do que no primeiro turno. De toda forma, Lula certamente terá um mandato difícil, considerando a composição do Congresso Nacional e do Senado Federal, a proposta de aumento de políticas sociais (que devem aumentar os gastos públicos) e o cenário internacional que não será fácil.
📚 Referências e Fontes
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