📝 Orientação Acadêmica não Deve Depender de Talento Individual

Resumo

O que o leitor ganha? Uma reflexão sobre o que realmente significa “orientar” um trabalho acadêmico, a partir da distinção entre aconselhar, treinar (Coach) e mentorar. Nasce da experiência de acompanhar, ao mesmo tempo, TCCs, iniciações e mestrados, e termina questionando se a orientação acadêmica deveria continuar dependendo do talento individual de cada professor.
Público-alvo: Professores que orientam trabalhos de conclusão ou pesquisa, coordenadores de disciplinas de TCC, pesquisadores em início de carreira e alunos que estão do outro lado dessa relação.


Introdução

Comecei este texto com a intenção de escrever sobre como guio meus orientandos. No meio do caminho, percebi que o foco mudou: antes de falar sobre como orientar, preciso entender o que, exatamente, estou chamando de orientação. Uso essa palavra todos os dias, no Centro Universitário FEI, para descrever coisas bem diferentes entre si, e talvez essa mistura, mais do que qualquer técnica específica, seja o verdadeiro tema desta postagem.

Este semestre estou coordenando a disciplina de Trabalho de Conclusão de Curso I e, em paralelo, acompanho um número de trabalhos que me obrigou a pensar sobre isso com mais cuidado do que de costume. Antes de contar como tenho tentado guiar a próxima geração, então, preciso separar alguns conceitos.

Conceitos e Distinções

Eu costumo iniciar qualquer produção definindo cuidadosamente os termos que serão utilizados. Por isso, antes de avançar nesta postagem, é essencial esclarecer os papéis de Aconselhador, Coach e Mentor.

  • Aconselhador: o Aconselhador atua de forma direta e objetiva, respondendo dúvidas específicas com base em normas institucionais, nacionais ou internacionais. Seu papel é oferecer soluções pontuais para tarefas concretas — como inscrições em processos, preenchimento de documentos ou elaboração de cronogramas. As interações são geralmente breves e de curto prazo, com foco no resultado imediato. O principal beneficiado é o aluno, que recebe orientações claras para executar ações específicas.
  • Coach: o Coach desempenha uma função de facilitação. Em vez de fornecer respostas, ele estimula a introspecção e a aprendizagem autônoma por meio de perguntas não diretivas. Seu foco é apoiar o estudante na reflexão sobre suas tarefas, decisões e desempenho. As interações são conduzidas pelo próprio aluno e costumam ser curtas, voltadas para o presente e para ações que podem ser implementadas rapidamente. Para isso, o Coach precisa oferecer feedback imediato, detalhado e baseado em evidências, permitindo que o estudante avance de forma prática e ágil.
  • Mentor: o Mentor é uma figura de longo prazo, que compartilha intencionalmente sua experiência e sabedoria para promover o desenvolvimento integral do estudante. Seu foco está na construção da identidade profissional, na orientação de carreira e no crescimento pessoal. A postura é diretiva, mas fundamentada em vivências reais e aprendizados acumulados. As interações são contínuas e colaborativas, permitindo troca de experiências entre Mentor e mentorado. É o papel que envolve maior profundidade relacional e compartilhamento de conhecimento ao longo do tempo.

Além disso, o contato entre professor e aluno parece atravessar algumas fases: a fase de iniciação, na qual há os primeiros contatos e a formação de expectativas mútuas; a fase de cultivo, na qual a relação passa a ter maior contato e ocorre o momento de maior apoio entre as partes; a fase de separação, na qual o aluno começa a buscar maior autonomia, já munido de algumas das ferramentas necessárias para essa busca; e a fase de redefinição, na qual a relação evolui para um vínculo mais profundo — próximo ao de pares — ou simplesmente se encerra.

O Ponto Cego da Mentoria em Áreas Técnicas

Me parece que a literatura indica que a mentoria em áreas técnicas (STEM) historicamente supervaloriza o suporte de carreira e negligencia o suporte psicossocial — a dimensão mais próxima do acompanhamento emocional, e não apenas técnico, do estudante. Isso ecoa bastante com o que já escrevi em Dois anos na FEI - Refletindo sobre crescimento e contribuições, no qual apresento minha tentativa de não apenas auxiliar meus alunos a compreenderem o conteúdo técnico, mas também a desenvolverem habilidades que considero igualmente importantes, como comunicação, visão de longo prazo, organização e, talvez o mais difícil de ensinar, a leveza para encarar os inevitáveis desafios.

Minha Tentativa de Orientação

Atualmente estou orientando 5 TCCs, 1 Iniciação Científica, 1 Iniciação Didática e 2 mestrados ao mesmo tempo. Não são apenas 9 trabalhos distintos, mas uma gama de alunos bem variada e abrangente. Além dos alunos, também compartilho a orientação com os professores e coorientadores de alguns desses trabalhos. Isso faz com que o meu papel não seja apenas o de orientador acadêmico, que deve auxiliar os alunos no desenvolvimento de suas habilidades técnicas, mas também o de Aconselhador, Coach e Mentor, a depender da situação e do tipo de trabalho.

Isso significa que eu mesmo preciso desenvolver não apenas habilidades técnicas em temas que não são do meu domínio específico, mas também habilidades socioemocionais, para garantir que a minha interação com os alunos seja a mais proveitosa possível. Infelizmente, tais habilidades costumam ser desenvolvidas por tentativa e erro, já que não há formação clara oferecida aos professores sobre o tema, e também porque a carga de trabalho já é tão extensa que seria ingênuo achar que mais um treinamento, sozinho, resolveria o problema.

Nesse sentido, me parece que o termo orientar, que tradicionalmente utilizamos na área acadêmica, não tem (e talvez não devesse ter) o mesmo significado de mentoria, apresentado no título desta postagem. Talvez, e aqui fica apenas uma especulação minha, fosse necessário deixar essa distinção ainda mais clara para os alunos. Em especial, acredito que os orientadores de trabalhos acadêmicos deveriam focar no desenvolvimento técnico do trabalho, enquanto outros profissionais, devidamente qualificados, atuariam como mentores, permitindo que a jornada formativa dos alunos fosse mais completa. Vale destacar que eu realmente não sei se essa é a melhor saída, mas acredito que, ao menos, traria mais clareza aos papéis atribuídos a cada um. Isso me parece ainda mais fundamental diante da falta de tempo e de recursos disponíveis para que os professores atuem em ambas as frentes.

Como exemplo, lembro da orientação de um grupo de alunos no qual percebi que o maior problema no desenvolvimento do trabalho de conclusão de curso não era resolver a questão técnica, mas comunicar com clareza as ideias que tinham e, principalmente, defender o trabalho na arguição. Falhar na etapa de defesa era o que mais trazia medo a esses alunos. Assim, definimos uma estratégia: fazer várias apresentações preparatórias nas quais o meu papel seria ser o mais incisivo possível. Os alunos já sabiam que o meu comportamento não seria o mesmo da banca, e que provavelmente seria bem mais duro do que o dos outros professores presentes. De toda forma, era uma maneira de se prepararem para a apresentação. A parte interessante é que essa estratégia partiu dos próprios alunos, não de mim.

Veja: isso não foi necessariamente um apoio emocional que eu ofereci, mas sim uma forma que encontramos, em conjunto, de nos prepararmos para uma etapa que costuma ser bastante angustiante para os alunos.

Hoje, na disciplina de Trabalho de Conclusão de Curso I que estou ministrando neste semestre, uma das minhas principais atividades é garantir que os papéis dos alunos, dos orientadores e o meu, como professor da disciplina, estejam claros. Além disso, tento evidenciar o que se espera do desenvolvimento de um trabalho de conclusão de curso. Também pretendo, ao longo do semestre, oferecer ferramentas para o desenvolvimento técnico e socioemocional dos alunos, preparando-os da melhor forma que eu conseguir para essa etapa.

Por que a Orientação não Devia Depender só do Talento Individual de Cada Professor

Me parece que duas suposições problemáticas sustentam a formação de orientadores no Brasil:

  • Titulação qualifica orientadores: parece haver uma visão de que uma titulação de mestre ou doutor qualifica automaticamente um professor a ser um bom orientador. Afinal, se ele passou por todo o processo árduo de desenvolver uma pesquisa (especialmente nas condições brasileiras), é claro que tem capacidade de orientar alunos. Isso está longe de ser verdade. Mesmo que a titulação exija o desenvolvimento de várias habilidades, algumas das necessárias para uma orientação adequada não são desenvolvidas ao longo dela. Além disso, em alguns programas de mestrado e doutorado, essa habilidades sequer são levadas em conta.
  • Pesquisadores sabem ensinar a fazer pesquisa: também há a visão de que qualquer pessoa que passou pelo processo de elaborar uma pesquisa científica tem, automaticamente, a capacidade de orientar o desenvolvimento de outras pesquisas. Aqui também existe uma distinção entre habilidades técnicas e socioemocionais necessárias para essa etapa. A formação técnica é, claro, fundamental para o desenvolvimento de uma ciência robusta, mas o processo científico vai além do conhecimento técnico: é preciso lidar com a frustração de experimentos com resultados inesperados, financiamentos baixos ou por vezes inexistentes, entre tantos outros problemas do mundo acadêmico.

Conclusão

Volto, então, à pergunta que abriu esta postagem: o que significa guiar a próxima geração? A resposta honesta é que ainda não sei ao certo. Sei que aconselhar, treinar e mentorar se misturam na prática, muitas vezes na mesma reunião, com o mesmo grupo de alunos, e que a academia brasileira ainda trata essa mistura como algo natural, sem oferecer aos professores nem o preparo nem o tempo necessários para fazer isso bem. O que tenho tentado fazer, tanto nas minhas orientações quanto na disciplina que coordeno, é ao menos nomear os papéis com mais clareza: para os alunos e para mim mesmo. Não é uma solução. É, talvez, um primeiro passo.

E você?

Se você orienta ou já foi orientado, onde traçaria a linha entre aconselhar, treinar e mentorar? E se fosse possível dividir esses papéis entre pessoas diferentes, você acha que a formação sairia ganhando em clareza ou perderia justamente o que torna a orientação uma relação, e não apenas um serviço prestado?


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