📝 Dois Anos na FEI: Refletindo sobre Crescimento e Contribuições

Resumo\

O que o leitor ganha? Uma reflexão honesta sobre os dois primeiros anos na docência universitária — os desafios reais de equilibrar ensino, pesquisa e orientação, e o que significa crescer junto com os alunos.
Público-alvo: Professores universitários, pesquisadores em início de carreira, e qualquer pessoa curiosa sobre o que acontece do outro lado da sala de aula.


Introdução

Olá pessoal! Hoje retornam as aulas da graduação no Centro Universitário FEI e, com esse espírito de recomeço, decidi escrever sobre a minha jornada docente nestes dois anos na instituição. Não é um balanço de conquistas , é mais uma tentativa honesta de entender o que aprendi, o que errei e para onde estou olhando agora.

Ano 1: O Início da Jornada

Entrei no Centro Universitário FEI no segundo semestre de 2024, ainda durante o meu doutorado, alocado no departamento de Ciência da Computação. Naquele primeiro semestre, assumi duas disciplinas: “Fundamentos de Algoritmos”, voltada a apresentar os conceitos iniciais de programação aos calouros, e “Computação Móvel”, que explorava programação de circuitos embarcados e desenvolvimento de aplicativos. Era muita coisa para alguém que ainda estava finalizando a tese , e, honestamente, aprendi tanto quanto ensinei.

Não houve um grande conflito interno entre o “Rafael aluno” e o “Rafael professor”. As disciplinas que ministrava eram mais básicas do que os conceitos com os quais lidava diariamente no doutorado, o que ajudou. O verdadeiro desafio foi outro: equilibrar tudo ao mesmo tempo, sem deixar nada cair. E nem sempre consegui.

Mas há uma memória desse primeiro semestre que ficou. Alunos do primeiro ciclo , recém-chegados à graduação , me perguntando sobre a carreira acadêmica. Queriam entender como funcionava a Iniciação Científica, o mestrado, o doutorado. Ver jovens que haviam acabado de entrar na universidade já pensando no horizonte da carreira foi, ao mesmo tempo, surpreendente e revelador. Ali percebi que meu papel não era apenas ensinar algoritmos: era, também, mostrar que caminhos existem.

No segundo semestre, mantive essas disciplinas, mas passei a lecionar também no campus de São Paulo, com a abertura dos cursos de Ciência da Computação e de Ciência de Dados e Inteligência Artificial. Foi exatamente nesse semestre que concluí o doutorado. Comecei ainda a orientar alunos de Trabalho de Conclusão de Curso e Iniciação Científica , uma frente nova, que me colocou diante de um papel diferente: não mais o de quem aprende, mas o de quem acompanha o aprendizado do outro.

Ano 2: Aprendendo a Caminhar

No segundo ano, fui convidado a me tornar professor em tempo integral. Foi uma ruptura , e mesmo esperada, não imaginei que viria tão rápido. O que mais me surpreendeu foi perceber que o trabalho que eu julgava simples tinha relevância suficiente para me colocar naquela cadeira. E começar a participar de discussões com muitos dos meus próprios professores , sentindo que o nível era o mesmo , foi algo que não consigo descrever melhor do que: gratificante.

A transição ampliou significativamente as minhas responsabilidades, incluindo a pesquisa na pós-graduação em Engenharia Elétrica. Busquei ampliar as orientações na graduação enquanto iniciava a captação de alunos de mestrado. E foi nesse processo que enfrentei , e ainda enfrento , um dos maiores desafios pessoais desse período: aprender a delegar a pesquisa.

Sei que é isso que vai formar bons pesquisadores no futuro. Mas também reconheço que ainda não tenho uma estrutura de apoio robusta o suficiente para que os alunos desenvolvam seus trabalhos com a autonomia que eu gostaria de oferecer. É um processo em construção , e essa honestidade me parece o primeiro passo para melhorá-lo.

Assumi também a coordenação das disciplinas de “Internet das Coisas” e “Conectividade e IoT”, mais alinhadas à minha área de pesquisa, o que trouxe uma sensação renovada de propósito em sala de aula.

Já em 2026, fui indicado para integrar a recém-criada Comissão para o Uso Ético de Inteligência Artificial da instituição. Esse papel chegou em um momento em que o debate era urgente , desde a popularização do ChatGPT, a pergunta não era mais se os alunos usariam essas ferramentas, mas como. O debate mais difícil que enfrentamos foi justamente esse: como criar políticas claras e simples o suficiente para serem aplicadas pelos diferentes departamentos e cursos, sem engessar o uso de ferramentas que vieram para ficar. A proibição completa nos pareceu contraproducente desde o início. Agora a questão real é outra , como usar o que essas ferramentas oferecem para melhorar o aprendizado dos alunos e o nosso próprio desempenho como docentes. Ainda não temos uma resposta definitiva. Mas ao menos estamos fazendo as perguntas certas.

Impactos Alcançados

Se eu tivesse que eleger três impactos concretos desse período, escolheria estes:

  • As avaliações dos alunos. Mais do que as notas em si, o que me toca são os comentários , e a frequência com que os alunos me procuram para conversar sobre carreira, cursos complementares, dúvidas sobre o futuro. São conversas que vão além do conteúdo da disciplina, e que me lembram por que escolhi essa profissão.
  • As orientações. Cada aluno me marca de uma forma diferente. Alguns pela curiosidade quase insaciável, outros por parecerem desinteressados até apresentarem um projeto surpreendente, outros pelas ideias criativas que eu não teria tido, e outros ainda pelas histórias de vida que carregam consigo. Acompanhar o desenvolvimento dessas pessoas é, para mim, o espaço mais rico de formação integral , minha e deles. Oriento não apenas o conteúdo técnico, mas habilidades que considero igualmente importantes: comunicação, visão de longo prazo, organização e, talvez o mais difícil de ensinar, a leveza para encarar os inevitáveis tropeços. O problema é que falta tempo para escutar todas essas histórias com a atenção que elas merecem.
  • A discussão sobre IA na educação. Participar da construção de políticas e boas práticas para o uso ético de IA na FEI foi uma oportunidade que não esperava ter tão cedo. Pude preparar material formativo para outros professores , muitos deles presentes na minha própria graduação e pós-graduação. Há algo de poético nisso: retornar à instituição que me formou para contribuir com quem me formou.

Lições Aprendidas

A principal lição é simples de enunciar e difícil de viver: educar de forma integral é muito mais trabalhoso do que parece. Exige planejamento, dedicação e uma tolerância considerável à incerteza , porque nunca sabemos com exatidão se o que fazemos está funcionando, mesmo quando os sinais são positivos.

Aprendi também muito com os meus alunos. Cada turma tem sua própria dinâmica, seus próprios ritmos e resistências. Controlar isso completamente não é nem possível nem desejável , o que importa é criar um ambiente onde cada pessoa sinta espaço para ser quem é. Ainda estou aprendendo a fazer isso melhor.

E escrevi uma vez sobre garrafas jogadas ao oceano , sobre a incerteza de não saber se as mensagens que enviamos chegam a algum lugar. Hoje, no retorno às aulas, tive as primeiras garrafas voltando: alunos da minha primeira turma na FEI agora chegam ao 5º semestre. O crescimento deles é visível, palpável. E tenho a sensação de que este semestre vai me surpreender bastante por causa disso.

Próximos Passos

Se eu pudesse dar um conselho ao Rafael de agosto de 2024 , entrando pela primeira vez na FEI ,, diria o seguinte: foque no propósito de um bom professor. Capacite o aluno de forma integral, garantindo que habilidades técnicas e comportamentais sejam desenvolvidas ao longo da formação. E saiba que você não tem como saber aonde cada aluno chegará , então deixe todas as portas abertas, para que eles possam explorar suas capacidades ao máximo.

É esse o conselho que também carrego para os próximos passos. Quero melhorar minha prática em sala de aula, ampliar os materiais das disciplinas e acompanhar cada vez mais de perto o desenvolvimento dos alunos que orientei.

Mas tenho clareza de que esse caminho esbarra em desafios reais: o uso crescente de IA e as questões que isso levanta sobre aprendizado genuíno, a tensão permanente entre amplitude e profundidade de conteúdo, e a preocupante queda no número de ingressantes no ensino superior , uma tendência que afeta toda a educação brasileira e que merece uma conversa própria.

Não sei até onde a vida acadêmica me levará. Mas espero, sinceramente, que os projetos e as pessoas que cruzarem esse caminho possam me desenvolver tanto quanto eu possa contribuir com elas, e que, de alguma forma, isso reverbere além dos muros da universidade.


E você, professor, aluno ou profissional que acompanha a educação de algum lugar, o que acha que mais falta hoje na formação universitária?.