🎧 Bolsa Família, dívidas e a economia na campanha

Em poucas palavras

Entrevistada: Monica de Bolle, economista, pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics.

Na última semana da campanha, a economia entrou com força no debate do segundo turno. Flávio Bolsonaro (PL) teve de ir às redes negar que pretende acabar com o Bolsa Família em dois anos, depois que a coordenadora econômica da campanha, Daniella Marques, falou em mudar a regra de transição do programa. Lula (PT) exaltou o pacote lançado pelo governo nos últimos meses, que inclui o reajuste do benefício, e prometeu novas medidas.

O Café da Manhã discute com a economista as lacunas e as perspectivas das propostas dos dois candidatos: as regras do Bolsa Família, a compra e o congelamento de dívidas de famílias e empresas, o corte de gastos prometido por Flávio e a aposta de Lula no crescimento para fechar as contas.


📝 Notas e Insights

A economia na última semana da campanha

  • Flávio Bolsonaro recebeu R 700 mil de Lula — reflexo do apoio da elite financeira. Economistas liberais questionam como um ajuste de R$ 200 bilhões seria possível sem mexer em programas sociais, salário mínimo e Previdência, como ele promete.
  • Flávio também prometeu recriar o Perse, benefício fiscal para o setor de eventos, e fala, sem detalhes, em criar um Ministério da Prosperidade e congelar dívidas.
  • Lula diz que o arcabouço fiscal recuperou as contas e promete crescimento com controle do gasto primário, justiça tributária e combate a privilégios. O reajuste do Bolsa Família seria pago a todos até quatro dias antes do segundo turno; a Folha mostrou que o Ministério do Planejamento preparou sob sigilo, na véspera do anúncio, os documentos que embasaram o aumento.
  • Lula prometeu sancionar a lei que perdoa a dívida de 4 milhões de microempreendedores individuais e enviar ao Congresso uma PEC de gratuidade do transporte público nos fins de semana, paga com emendas parlamentares.
  • Para Monica de Bolle, é bom que os temas apareçam, mas deveriam ter aparecido antes: anúncios de última hora e declarações desencontradas impedem avaliar o que a campanha de Flávio fará com o Bolsa Família, com as dívidas e com o ajuste fiscal.

A regra de transição do Bolsa Família

  • Como é hoje: entra no programa a família com renda de até R 706 por pessoa, sai do programa. São dois gatilhos de renda.
  • A proposta de Flávio: transição de dois anos para quem conseguir emprego com carteira ou abrir um negócio, com retorno automático se der errado — “as pessoas não podem ficar presas para sempre no Bolsa Família”, disse Daniella Marques. A falta de detalhes e as críticas passadas de Flávio, que chamou o programa de “Bolsa Farelo” e depois apagou os posts, alimentaram a leitura de que o benefício acabaria em dois anos, o que a campanha negou.
  • A crítica de Monica de Bolle:
    • sem gatilhos de renda, quem arranja um emprego que não leva a renda a R$ 706 por pessoa perde o complemento que a regra atual garante — mais insegurança econômica para as famílias;
    • se a ideia for pagar o benefício integral por dois anos, a regra fica mais generosa que a atual, e a campanha precisa dizer de onde virá o dinheiro;
    • do lado de Lula, há parâmetros conhecidos — por exemplo, voltar a estender a transição para dois anos, como era antes da mudança do ano passado. Do lado de Flávio, “não há ponto de partida algum”.
  • Em fevereiro, o então ministro Fernando Haddad falou em rever o programa, citando a renda básica e uma “nova arquitetura” para o gasto social, mas isso não entrou no programa de governo de Lula. Com mais de 90% do orçamento comprometido com gastos obrigatórios, ampliar benefícios é difícil; melhorar a transição sem gastar mais é possível.

Compra e congelamento de dívidas

  • O governo Lula tem lançado versões do Desenrola Brasil; a mais recente prevê o poder público comprar dívidas antigas das pessoas, negociando descontos com os bancos. No debate da Band, Flávio fez proposta parecida e foi além: congelar por seis meses as dívidas restantes de pessoas físicas e por um ano as de empresas.
  • O cenário de Monica de Bolle: se um governo Flávio usasse os R$ 200 bilhões que a campanha cita para comprar carteiras de dívida dos bancos, seria uma estatização de dívidas privadas. O problema é o montante, que não tem limite definido:
    • a dívida pública sobe de imediato;
    • com mais dívida, os juros sobem, e não caem, como Flávio disse no debate — os credores cobram prêmio de risco maior;
    • no fim do congelamento, as famílias voltam a pagar sem saber como, quanto e com que juros. “Congelamento é congelamento.”
  • Ver também Endividamento das famílias.

O ajuste fiscal nos dois planos

  • Flávio: o plano de governo critica o PT por ter “destruído” o teto de gastos, mas não diz se pretende restabelecê-lo, e promete regras fiscais “claras”, superávits e controle dos gastos discricionários dos três Poderes, sem detalhar. A meta declarada é cortar de R 250 bilhões.
    • Para Monica de Bolle, são platitudes — “choque de gestão” é termo “invariavelmente cuspido por inteligência artificial”.
    • Se Flávio não mexer em salário mínimo, aposentadorias e BPC, como promete, a conta não fecha; o único grande item que sobra é a folha do funcionalismo.
  • O teto de gastos: tetos são comuns no mundo; o erro brasileiro foi pôr na Constituição uma regra que costuma ser fixada em lei. No governo Jair Bolsonaro, o teto foi alterado várias vezes, por emendas constitucionais, antes, durante e depois da pandemia — inclusive no ano da reeleição — e perdeu credibilidade.
  • Lula: o arcabouço deu flexibilidade, mas ela foi mal usada: houve alguma melhora no resultado primário, insuficiente para estabilizar a dívida. Segundo o Banco Central, a dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do PIB em agosto, o maior nível desde março de 2021.
    • O plano de Lula aposta que o crescimento ajudará na receita, mas tudo indica que a economia vai frear em 2027. Se isso acontecer, o que será cortado? O texto também é feito de “palavras bonitas e platitudes”.
    • Para Monica de Bolle, o Brasil virou “campeão de detonar as suas próprias regras fiscais” — com Dilma, Temer, Bolsonaro e agora com o arcabouço. Qualquer regra nova precisa de credibilidade, governança e institucionalidade próprias.

Populismo, mercado e voto

  • Nas duas campanhas, a retórica fiscal da reta final é populista, e o país vai ao segundo turno “às cegas” sobre a política macroeconômica.
  • O mercado esperava de Flávio um ajuste à moda de Javier Milei — comparação usada pela própria equipe dele, embora Brasil e Argentina sejam muito diferentes. Agora há uma “ficha caindo”: sem detalhes e com discursos contraditórios, ele já não representa a promessa de ajuste, e a incerteza no médio prazo afasta investimento.
  • “O Brasil vai quebrar”? A dívida é alta e precisa cair, mas o país não está prestes a quebrar, com Lula ou com Flávio. O mercado brasileiro é “ciclotímico”. O país terá dificuldades com qualquer um dos dois, e por isso os detalhes importam.
  • Economia e voto: ajuste fiscal e regras técnicas pesam pouco no voto; o que o eleitor chama de economia é custo de vida e segurança econômica. Ao lançar dúvidas sobre o Bolsa Família, o salário mínimo e os programas sociais, Flávio fragiliza mais a sensação de segurança econômica do que Lula, embora este também não tenha apresentado grandes propostas.

Outras notícias do episódio

  • Documento do Ministério da Fazenda revelado pelo UOL e obtido pela Folha aponta o advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio, como o maior apostador em bets do país em 2025, com R$ 5 bilhões movimentados, a maior parte na plataforma Blaze. A Polícia Federal investiga se as movimentações ocultam recursos ilícitos; Willer diz que o dinheiro tem origem lícita e foi declarado. A campanha de Flávio afirma que não há manifestação da Procuradoria-Geral da República nem decisão judicial sobre o caso em que ele é citado.
  • O UOL revelou que o escritório de advocacia de Flávio emitiu ao menos R$ 13,7 milhões em notas fiscais entre 2023 e 2026, enquanto ele exercia o mandato de senador.
  • Lula formalizou no TSE a proposta, feita no debate da Band, de abrir os sigilos bancário, fiscal e telefônico dele e da família — inclusive de Lulinha —, desde que Flávio e a família Bolsonaro façam o mesmo. O ministro André Mendonça foi sorteado relator.

💭 Minhas impressões

Me parece claro que os dois candidatos, tanto Lula quanto Flávio, não tem um plano macroeconômico claro. Entretanto, na minha visão, as relações que os candidatos tem com diferentes setores talvez ajude a trazer clareza sobre o que pode acontecer. No caso de Lula, me parece que o próximo governo manteria a trajetória de aumento da dívida pública com a ampliação de benefícios e medidas que atingem diretamente os mais pobres. No caso de Flávio, as medidas seriam mais relacionadas a benefícios fiscais e desregulatórios que beneficiam especialmente as empresas. Entretanto, em ambos os cacos não é claro como cada ação será realizada, se é que será realizada, e em sendo realizada quais os reais impactos previstos por tais ações. No fim, me parece que os dois planos são apenas eleitoreiros e que nada do que está proposto será efetivamente realizado no próximo governo.


📚 Referências e Fontes

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🌐 Referências Externas