📝 Currículo Linear, Aprendizado Tortuoso
Resumo
O que o leitor ganha? Uma leitura honesta de uma carreira acadêmica que, vista de fora, parece perfeitamente linear e que, olhada de perto, só se sustenta por causa dos desvios. Serve como antídoto para quem acredita que existe um único caminho certo a seguir.
Público-alvo: Alunos de graduação decidindo os próximos passos, pesquisadores em início de carreira e professores que orientam pessoas nessa fase.
Introdução
Antes de mais nada, devo dizer que a minha carreira acadêmica até aqui é bastante linear: fiz a graduação, o mestrado e o doutorado. Depois fui contratado como professor horista e, por fim, como professor em tempo integral. Atualmente, além de atuar na graduação, também sou professor colaborador da pós-graduação no Centro Universitário FEI.
Contada assim, essa história cabe em três linhas de currículo. E é exatamente esse o problema: se você ouvir apenas o resumo, do jeito que acabei de contar, vai perder alguns detalhes importantes. Detalhes que fazem com que a minha carreira não seja, nem de longe, tão linear quanto parece. O currículo é linear; o aprendizado nunca é.

Vamos mergulhar nessa ideia…
A Graduação: Engenharia Mecânica com Trabalho de Conclusão de Curso na Civil?
Devo dizer que, quando concluí o ensino médio, eu queria desenvolver robôs. À época, os cursos de engenharia voltados à robótica ainda não estavam disponíveis, e eu compreendi que deveria escolher uma entre as seguintes áreas: Engenharia Elétrica, Engenharia Mecânica ou Ciência da Computação. No fim, optei pela Engenharia Mecânica, porque acreditava, naquele momento, que a parte estrutural e os processos de fabricação eram o que mais me chamava a atenção na construção de robôs. Sendo assim, decidi me matricular nesse curso no Centro Universitário FEI.
Durante a graduação, fui bombardeado por disciplinas de matemática e física nos primeiros ciclos, mas logo vieram as disciplinas específicas do curso. Nesse processo, entendi que a engenharia mecânica se organiza em algumas grandes áreas: mecânica dos fluidos, termodinâmica e transferência de calor, propriedades dos materiais, cinemática e dinâmica e, por fim, processos de fabricação.
Ao final do curso, já preparado por várias disciplinas formativas dessas áreas, começamos a estudar as diferentes aplicações: máquinas de elevação, máquinas agrícolas, máquinas de manufatura, veículos e assim por diante. Foi nesse momento que uma área caiu no meu colo: construção residencial. Meu TCC acabou sendo uma análise de viabilidade de uma residência construída a partir de contêineres marítimos.
Ou seja: alguém que queria fazer robôs, que aprendeu a projetar os mais diferentes maquinários, terminou a graduação defendendo um trabalho sobre residências. Eu diria que a linearidade já não foi das melhores logo no início.
O Mestrado: o Início da minha Jornada na Computação
Quando descobri que poderia fazer o mestrado com bolsa mérito, por ter sido o melhor aluno da minha turma no ano em que me formei, eu procurava uma área que fosse relevante. À época, começava a surgir o conceito de Indústria 4.0 e suas tecnologias de base. Nesse sentido, procurei os professores do Centro Universitário FEI e fui desafiado a trabalhar na intersecção entre Indústria 4.0 e agricultura, desenvolvendo um sistema capaz de simular um processo agrícola e, depois, enviar os resultados para o sistema real. Esse era o princípio dos Gêmeos Digitais, tema que estudo e tento desenvolver até hoje.
Entretanto, eu tinha uma barreira clara: não fazia ideia de como programar. Durante a graduação em Engenharia Mecânica, tive pouquíssimo contato com o universo da programação, eu sabia apenas o básico. Foi então que, já na primeira reunião do projeto do qual passei a fazer parte, fui apresentado ao terminal do Linux, com o envio de múltiplas requisições HTTP feitas por linha de comando. Foram inúmeros comandos enviados e a única coisa que eu conseguia entender era que havia uma tela preta, um cursor piscando e, de repente, um monte de texto, código, ou sei lá o que era aquilo. (P.S.: só hoje eu sei o que aconteceu ali; na época, não fazia a menor ideia.) Lembro de ser a primeira vez que me senti completamente perdido no meio acadêmico. Certamente não seria a última.
Foi ali que percebi que precisaria aprender a programar, mesmo não sendo formado na área. Somada a essa necessidade, veio outra constatação: vários dos softwares de simulação que eu pretendia usar tinham suas próprias linguagens de programação e metodologias de desenvolvimento, algo que só hoje compreendo melhor, ao perceber que quase todos usam orientação a objetos para facilitar o trabalho.
Bom, para alguém que queria trabalhar com tecnologias aplicadas à indústria, acabar em um projeto de agricultura e, em especial, no desenvolvimento de soluções de Internet das Coisas, eu diria que novamente não houve linearidade.
O Doutorado: uma Consolidação, ainda que Fraturada
O doutorado foi, provavelmente, o período mais linear da minha carreira. Isso decorre da própria natureza dessa titulação, que exige conhecimento profundo sobre um tema específico e a proposição e avaliação de algo inédito na literatura científica. Em tese, eu não deveria ser desafiado a aprender assuntos tão abrangentes. Mas não foi bem isso o que aconteceu.
Nesse período, tive que aprender sobre eletrônica, biologia de plantas, processos produtivos na agricultura em ambiente controlado, efeitos da luz em cultivos, entre tantos outros temas.
Foi também no doutorado que atuei, em paralelo, como consultor de um projeto que visava desenvolver um sensor a ser incluído na massa de borracha de pneus para veículos pesados. O que pneu tem a ver com planta eu ainda não sei dizer, mas, mais uma vez, fui sendo levado para áreas distintas.
O Início da Docência: Projetos Diversos
Na docência, comecei ministrando disciplinas ligadas à minha área. Além delas, também assumi disciplinas básicas de programação, o que me ajudou a consolidar conceitos e a lapidar a explicação de muitos deles — para mim e para os alunos. Entretanto, o que mais me surpreendeu foram os trabalhos de orientação.
Logo no começo, orientei três trabalhos: um sobre o retrofit de máquinas industriais legadas para conectividade 5G, outro sobre detecção de intrusão em redes de dispositivos IoT e um terceiro sobre operações remotas em robôs humanoides. Só com isso já é possível imaginar a quantidade de conceitos novos que precisei aprender: redes 5G, segurança, privacidade, cinemática de robôs, prototipagem rápida, visão computacional, entre tantas outras frentes.
Os Custos e o “E se …”
Com base nesse texto, você pode ter a impressão de que todos os meus desvios de rota acabaram sendo enriquecedores. Isso está longe de ser verdade. Perdi tempo com cursos formativos que, no fim, não tinham qualidade. Persegui caminhos de pesquisa que não deram fruto. Em especial, também sofri bastante com a sensação de que não estava pronto o suficiente, que não conhecia o básico para poder atuar nas posições em que estava alocado e principalmente que não tinha competência para desenvolver os projetos que desenvolvi.
Somado a isso, várias vezes eu me peguei pensando “e se eu tivesse feito isso antes”, “e se eu seguir este outro caminho”, “e se …”, “e se …”, “e se …”. No fim, eu sinceramente não sei o que teria sido da minha carreira se a minha jornada não tivesse sido como foi. O que posso afirmar é que encontrar muitas barreiras, percorrer muitos caminhos, encontrar poucas saídas e ir aos poucos construindo conhecimento é, sem dúvidas, uma habilidade formativa importante.
Mesmo que às vezes seja desgastante.
Estado Atual
Enquanto escrevo estas linhas, olho para o mural em que anoto todos os projetos que estão sob minha orientação. No momento, são 5 TCCs, 1 Iniciação Científica, 1 Iniciação Didática e 2 mestrados. Os temas: visão computacional, grandes modelos de linguagem, computação na educação, interação humano-robô, visão computacional na agricultura, entre outros.
Certamente continuo aprendendo. Hoje, tenho a computação como fio condutor, mas as aplicações são as mais diversas. E isso me exige três coisas ao mesmo tempo. De um lado, o conforto de estar desconfortável o tempo todo. De outro, a disposição para encarar um desafio novo a cada hora. E, por fim, a curiosidade — que tento passar adiante aos meus alunos, mostrando que ela importa e que mesmo uma carreira que parece linear costuma ter muito mais altos e baixos do que supomos à primeira vista.
Isso significa que tento abrir espaço para que os alunos possam explorar múltiplas possibilidades. Isso significa também indicar que um caminho pode não ser o mais adequado, mas se o aluno quiser persegui-lo ele tem total liberdade para fazê-lo. Afinal, é principalmente tentando e errando que o aprendizado a longo prazo é desenvolvido. Aquele que sempre acerta, nunca aprende e no fim acha que é invencível.
Ressalvas
Por fim, devo fazer uma ressalva importante. Nada do que escrevi aqui significa que a não-linearidade seja o melhor caminho, muito menos o único. Verticalizar, ou seja, escolher um tema, aprofundar por anos e se tornar uma referência nele, é um caminho igualmente legítimo e, provavelmente, bem mais eficiente para quem descobre cedo o que quer. Preciso reconhecer também que os meus desvios só foram possíveis porque encontrei condições que não são dadas a todo mundo: diversas bolsas, que me permitiram fazer o mestrado sem escolher entre estudar e me sustentar; projetos com participação de múltiplos alunos e a orientação de diversos professores; alguma estabilidade ao longo do percurso; e uma instituição que aceitou que eu circulasse entre a mecânica, a agricultura e a computação sem me cobrar uma justificativa a cada troca. Sem isso, boa parte dos meus “e se” teria virado “não deu”. Talvez seja essa a leitura mais útil deste texto: uma carreira não-linear não é apenas questão de coragem ou de curiosidade, é também questão de condições; e parte do meu trabalho hoje, como professor, é ajudar a criar essas condições para os meus alunos.
E você?
Olhe para o seu próprio caminho: qual foi o desvio que, na hora, pareceu um erro de rota e que hoje você reconhece como parte essencial da sua formação? Se quiser continuar a conversa, este post conversa diretamente com Uma Carreira em Construção - Minha Exploração Multidisciplinar e com Abrace a Jornada - O Poder de Viver em Construção.
🔗 Conexões & Contexto
- Tema Principal: Carreira acadêmica, trajetórias não-lineares e aprendizado multidisciplinar
- Notas Alimentadoras:
📚 Referências e Produção
- Minha própria carreira