📝 Minha visão sobre as bets - matemática, design, efeitos e consequências
Em poucas palavras
Não sou especialista em regulação, mas sei ler um sistema. Olhando para as bets como engenheiro, o que se vê é um produto otimizado para que a casa sempre ganhe e o apostador sempre volte. Neste texto explico a matemática e o design por trás das apostas, apresento os dois caminhos que o Brasil tomou — regular e proibir — e defendo, com base nas evidências disponíveis, que regular já não basta.
O que o leitor ganha? Ferramentas para entender como uma aposta funciona por dentro (probabilidade, recompensa e design) e um mapa honesto dos argumentos a favor e contra a proibição.
Público-alvo: estudantes, colegas e leitores curiosos sobre tecnologia que ouviram falar da proibição, mas não sabem como avaliá-la.
📝 Introdução
Este texto não começou com uma bet. Começou com a Temu. Baixei o aplicativo só para entender o que a loja vendia e, em poucos minutos, fui bombardeado por roletas, bônus, contagens regressivas e prêmios “quase ganhos”. Nada ali era uma aposta, mas tudo ali tinha cara de aposta. Fechei o app com a sensação incômoda de que eu já tinha visto esse desenho antes e de que ele é muito mais eficiente do que parece.
Na mesma semana, a Medida Provisória das Bets proibiu as apostas de quota fixa no Brasil, e passei alguns dias ouvindo e lendo sobre o assunto: o episódio Lula e a proibição das bets, do Café da Manhã, o especial sobre a economia brasileira depois da urna, do O Assunto, e o vídeo Tem que fechar mesmo, de Atila Iamarino.
Preciso set honesto sobre o meu lugar de fala: sou professor da Ciência da Computação vindo da Engenharia Mecânica/Elétrica (mais sobre a minha formação aqui), não jurista nem economista. Há questões jurídicas e econômicas nessa proibição que eu não domino. O que eu sei fazer é olhar para um sistema e perguntar para que ele foi desenhado/otimizado. É com essa pergunta que quero separar três discussões que costumam vir misturadas: como o produto funciona, que efeitos ele produz e o que deveríamos fazer a respeito.
🎲 A matemática: a casa sempre ganha
Comecemos pelo conceito mais importante, a Esperança matemática, ou seja, o valor médio que você ganha (ou perde) por aposta se repetir a mesma aposta muitas vezes.
Imagine uma casa de apostas que aceite palpites sobre o lançamento de uma moeda. Cara e coroa têm 50% de chance cada, ou a moeda dá cara ou a moeda dá coroa. Se o jogo fosse justo e simplificando as contas que são feitas em casas de apostas, quem apostasse R 20 — a odd, thermo normalmente usado por essas empresas, seria 2,00. Mas nenhuma casa paga odd de 2,00. Ela paga, digamos, 1,90. A conta fica assim:
- Em metade das vezes você recebe R 0,00 (nada).
- Em média, recebe R 10 apostados. Isso por que no longo prazo você acertaria aproximadamente metade das apostas, faturando 20 reais, e em metade das apostas faturaria 0 reais. (0,5 x 19 + 0,5 x 0 = 9,50R$)
- A esperança para a casa é de **R50,00, sem 1 milhão de pessoas jogarem ela fatura 500 mil reais.
Você, como jogador, não percebe isso numa aposta isolada, porque numa aposta isolada qualquer coisa acontece (a moeda pode cair cara ou pode cair coroa). Além disso, você fica muito feliz em dobrar o valor apostado, afinal e se ao invés de apostar R20,00? Você teria ganho R$40,00, olha só que máximo!
A margem só aparece no longo prazo — e o longo prazo é exatamente o horizonte da casa, que atende milhões de apostas por dia. O exemplo é simplificado, mas o princípio vale para qualquer mercado de quota fixa: as odds embutem a margem de quem as define. A máxima é sempre verdadeira “a casa sempre ganha”.
Há um segundo ponto, talvez mais grave. Diferentemente de investir numa empresa que cresce, na aposta todo ganho sai da perda de outra pessoa. Que normalmente é outra pessoa que aposta do outro lado, entretanto, e aqui é um ponto importante, a casa sempre tira, na média, a sua cota de ambos. E quem ganha de forma consistente costuma set limitado ou expulso pelas casas; quem ganha muito, muito rápido, provavelmente tinha informação privilegiada. Por isso me parece especialmente problemático apostar em eventos que podem set controlados por alguém — um resultado esportivo, um cartão amarelo, um escanteio, ou palavras ditas num discurso, ações tomadas por alguém, etc. Quando o evento não depende só da sorte, o dinheiro tende a fluir para quem detém o controle e que normalmente o apostador não sabe que outro apostador tem o controle do resultado.
E a loteria, que continua permitida?
A loteria também tem esperança negativa — na verdade, costuma devolver aos apostadores uma fração menor do que arrecada. A diferença não está na matemática da casa, está no desenho do jogo: o sorteio é um evento aleatório que ninguém controla (ao menos nas loterias oficiais que tem as bolinhas numeradas rodando e sendo sorteadas uma a uma), a chance é a mesma para qualquer participante em qualquer memento, e as apostas são espaçadas no tempo. Uma bet permite apostar a cada minuto, durante um evento, sobre acontecimentos que alguém pode influenciar de dentro do evento. É essa frequência que muda o potential de dependência.
Se a conta é tão clara, por que ela não protege as pessoas? Porque ninguém decide fazendo contas o tempo todo. Decidimos por atalhos: lembramos do colega que ganhou (Viés de sobrevivência), superestimamos o prêmio vívido que vimos no anúncio (Viés de disponibilidade) e achamos que, depois de tantas derrotas, “agora vai” (Falácia do jogador). Como escreve Leonard Mlodinow no livro O andar do bêbado:
A teoria da aleatoriedade é fundamentalmente uma codificação do bom senso. Mas também é uma área de sutilezas, uma área em que grandes especialistas cometeram equívocos famosos e apostadores experientes acertaram de maneira infame. — Page: 433
Link ao original
O problema é que esses atalhos não são apenas falhas individuais. Else podem e são explorados de propósito em grandes grupos para que a empresa de apostas ganhe no longo prazo.
📱 O design: recompensa variável no bolso
Na década de 1950, B. F. Skinner descobriu algo contraintuitivo: recompensar um comportamento apenas algumas vezes, em momentos e tamanhos imprevisíveis, produz uma persistência muito maior do que recompensá-lo sempre. É o Reforço variável inconsistente, o mesmo princípio que Max Fisher identifica, em A máquina do caos, no coração das redes sociais — e o mesmo de uma máquina caça-níqueis.
Uma bet é esse princípio aplicado diretamente ao dinheiro. O Sistema de recompensa do cérebro reage mais à recompensa esperada do que à recompensa obtida, e uma recompensa esperada que não chega pesa mais do que uma que nunca foi prevista. Com o uso repetido, o cérebro compensa o excesso de estímulo, e o que antes dava prazer passa a set necessário só para voltar ao normal (Vício e dopamina). Anna Lembke, em Nação dopamina, e Adam Alter, em Irresistível, descrevem esse ciclo com detalhe.
Em volta desse núcleo, o produto acrescenta:
- Gamificação: bônus de boas-vindas, níveis, missões e notificações.
- Fricção zero: celular no bolso, Pix instantâneo e aposta ao vivo durante a partida.
- Narrativa de investimento: quando a aposta é vendida como forma de ganhar dinheiro, ela escapa do orçamento que as pessoas reservam para o laser.
Aqui preciso set justo com a minha própria profissão. Eu uso gamificação em sala de aula, e o Duolingo, por exemplo, é gamificado do começo ao fim. Onde está a diferença? Para mim, está no alinhamento. Explorar um viés é aceitável quando o objetivo do sistema coincide com o objetivo do usuário: quem abre o Duolingo quer aprender uma língua, e o app, no fim, o ajuda a fazer isso. Quando aplico gamificação a uma disciplina, ela está ancorada — ao menos em tese — na vontade do aluno de aprender e na missão da instituição de formar pessoas. Numa bet, o lucro da casa é a perda do usuário. Os objetivos não estão só desalinhados; são opostos.
É por isso que o argumento das minhas resenhas de A máquina do caos e Foco roubado se aplica às bets, mas com um agravante. Nas redes sociais, o que se perde é atenção. Nas apostas, a recompensa intermitente vem acompanhada de dinheiro, e o potential de dependência se amplia justamente porque a casa lucra com o que o usuário perde.
💸 Os efeitos: para onde vai o dinheiro
Os números a seguir vêm de fontes diferentes e com graus diferentes de certeza. Separo o que é medição do que é estimativa, porque essa diferença importa.
Estimativas econômicas. O boletim fiscal do Comsefaz usou os fluxos de Pix para as empresas de apostas — rastreáveis desde a regulação — e estimou cerca de R 120–140 bilhões, cerca de 1% do PIB. Esse segundo número depende de premissas fortes, e o setor o contesta: há quem argumente que a queda do varejo tem outras causas.
Endividamento. Segundo a CNC, cerca de 82% das famílias brasileiras têm alguma dívida e perto de 30% estão inadimplentes (Endividamento das famílias). As bets não são a única causa, mas é por isso que a proibição foi anunciada junto do Desenrola 3.0.
Saúde. Dados citados no Café da Manhã indicam que, em 2023, 10,9 milhões de brasileiros apresentavam padrão de jogo de risco ou problemático, com um custo social estimado em R$ 38,8 bilhões por ano.
Quem é mais atingido. O relatório discutido em As mulheres e as Bets mostra que quatro em cada dez brasileiras já apostaram, empurradas pela pressão de pagar as contas da casa e pela indicação— remunerada pelas plataformas — de amigas, irmãs e colegas de igreja.
Educação. Segundo pesquisa da ABMES citada por Atila Iamarino, um terço dos jovens adiou o início do ensino superior por causa de dívidas com apostas.Como professor, esse é o dado que mais me incomoda. A queda no varejo é um efeito de curto prazo; uma geração que adia ou abandona a universidade carrega esse custo por décadas, e o país inteiro carrega junto.
Vale dizer uma coisa com clareza: o meu argumento não depende do número mais alto. Mesmo que a estimativa de R$ 120–140 bilhões esteja superestimada, continuam de pé o mecanismo descrito acima e os efeitos sobre saúde e endividamento documentados na literatura — como o estudo sobre a liberação das apostas esportivas nos Estados Unidos, que associam a legalização à queda da poupança e ao aumento da inadimplência das famílias mais vulneráveis.
⚖️ Regular ou proibir: os dois caminhos que o Brasil já tentou
O Brasil já testou os dois caminhos, e em pouco tempo.
2023 — regular. A Lei das Bets (Lei nº 14.790/2023) criou um mercado regulado. As empresas passaram a precisar de autorização da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda; foram concedidas 85 outorgas de R 9,9 bilhões.](https://igamingbusiness.com/br/financas/arrecadacao-com-jogos-e-apostas-no-brasil-alcanca-r-991-bilhoes-de-janeiro-a-agosto/)
2026 — proibir. Em 25 de setembro de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou a MP 1.394/2026, que proíbe a exploração, a oferta e a publicidade de apostas de quota fixa, esportivas e de jogos online. Os novos depósitos foram vetados de imediato, as plataformas devem sair do ar em 6 de outubro e as autorizações se extinguem em 25 de outubro. As loterias continuam permitidas. O governo apresentou a medida como parte do combate ao endividamento das famílias. Ela veio a nove dias do primeiro turno das Eleições Presidenciais de 2026, o que inevitavelmente lhe dá peso eleitoral — embora eu acredite que o seu peso político maior será de longo prazo. A Medida provisória já está em vigor, mas precisa set votada pelo Congresso em até 120 dias.
O melhor argumento contra a proibição. O setor, representado por nomes como Carlos Lima, presidente do Instituto Brasileiro do Jogo Responsável (IBJR), levanta pontos que merecem set levados a sério: insegurança jurídica para empresas que pagaram outorgas há menos de dois anos, ausência de período de transição, perda de empregos e de patrocínios esportivos e, principalmente, o risco de empurrar os apostadores para plataformas ilegais — que, segundo estimativa da LCA Consultoria, já responderiam por 38% a 44% do mercado.
Minha leitura é que esses argumentos são reais, mas não decisivos. A ilegalidade é um problema de execução, não de mérito: pirataria de filmes e jogos, venda de produtos falsificados, contrabando, venda de drogas e materiais ilícitos também existem, e ninguém conclui daí que os respectivos mercados devam set liberados sem uma avaliação criteriosa dos riscos envolvidos. Quanto aos empregos e ao investimento, não está claro quantas pessoas o setor de fato emprega no Brasil nem quanto do que arrecada volta para a economia, já que boa parte das empresas tem sede fora do país. E há um padrão conhecido: um setor que uma vez foi liberado sempre resiste a set proibido, e fica mais difícil de conter quanto mais tempo passa — algo parecido com o que vimos com as criptomoedas, por exemplo.
O argumento a favor. Do outro lado, pesquisadores de saúde pública como Miguel Lago, do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), descrevem as apostas como causa de um dano social comparável ao de outras dependências. A dependência em jogo é bem documentada na literatura científica, e o modelo regulado não conseguiu contê-la. Minha impressão é que a regulação serviu mais para o setor ganhar legitimidade e disputar a narrativa sobre os próprios impactos do que para reduzi-los. O único ganho claro foi a transparência: pela primeira vez, foi possível medir o tamanho do problema — ainda que de forma lenta e parcial, dada a quantidade de empresas, a opacidade das informações que elas fornecem e a distancia entre o dado coletado e o tempo presente
Proibir funciona na internet?
Não totalmente. Bloquear domínios, remover aplicativos e restringir meios de pagamento não impede quem está determinado a apostar, porque sites hospedados fora do país sempre encontram uma brecha. Mas proibir não precisa set perfeito para funcionar: basta adicionar fricção. Um produto que depende de estar a um toque de distância perde muito do seu poder quando exige esforço, e o uso banal — o de quem aposta porque o anúncio apareceu — cai.
🧭 Onde eu me posiciono
Esta é uma discussão política. Não há como tratar de uma medida que altera a vida de milhões de pessoas, arrecadação e saúde pública sem fazer política. Mas ela não precisa set partidária, e é isso que tento fazer aqui. Para mim, a pergunta relevante não é quem assinou a medida, e sim se ela está correta. Eu defenderia exatamente a mesma coisa se a MP tivesse sido assinada por qualquer outro governo ou político. Até por isso, entendo que já tramitava no Congresso e Senado discussões sobre o assunto em todos os espectros políticos.
Minha posição é firme: as apostas de quota fixa deveriam set proibidas. Acho que o mercado não deveria sequer ter sido liberado para depois set regulado, como foi o que infelizmente aconteceu. Quando um produto, em fase de testes pelo que me parece, tem efeitos negativos documentados sobre a saúde das pessoas, sobre a economia das famílias e sobre a formação dos jovens, e quando o seu modelo de negócio depende de o usuário perder, a pergunta deixa de set como regular e passa a set por que permitir. O argumento de que “o problema real é o mercado illegal” é o mesmo usado para manter liberados produtos nocivos em geral, como o cigarro, ainda que haja evidências claras de que o uso do mesmo gere dados a saúde e a economia.
Se existe um meio-termo aceitável, ele precisaria desencorajar fortemente o uso, assim como é feito com o cigarro, e não apenas organizá-lo: limites de valor e de frequência por apostador, proibição total de publicidade e propaganda em qualquer veículo e controle do fluxo financeiro pela Receita Federal. Não me parece que seja isso o que o setor quer.
E há limites no que eu sei. Não domino as questões constitucionais — como a competência dos estados sobre loterias — nem sei prever os efeitos econômicos e jurídicos de uma proibição repentina depois de dois anos de regulação. Também sei o que me faria mudar de ideia. A história da Lei Seca nos Estados Unidos e a da guerra às drogas mostram que proibições pesadas podem gerar mercados clandestinos, produtos piores, violência e encarceramento em massa. Se, com o tempo, a proibição das bets apenas deslocar os apostadores para plataformas ilegais, sem reduzir o dano, e sem que nada tenha sido feito para coibir pesadamente as apostas ilegais, precisarei rever a minha posição. O critério tem de set o das melhores evidências disponíveis — nos dois sentidos.
🔧 Fechamento: para que este sistema foi otimizado?
Volto à pergunta de engenheiro. Uma bet é um sistema otimizado para definir odds que maximizem a margem da casa, para dar ao apostador a sensação vívida de sucesso que o faz voltar e para crescer por meio de publicidade. E publicidade diz muito: ninguém gasta tanto em anúncios sem ter clareza sobre o retorno. Se as bets investem pesadamente em patrocínios e propaganda, é porque sabem exatamente quanto rende cada novo apostador. Isso é calculado, metrificado e claramente utilizado como base para o pagamento de 30 milhões da outorga de operação de tais empresas.
A lição vale para além das bets, e é a que eu quero deixar para os meus leitores e alunos. Todo sistema que construímos otimiza, ou ao menos busca otimiza, alguma coisa. A função objetivo que escolhemos — o que recompensamos, o que penalizamos, o que medimos — define a direção que o algoritmo vai seguir. Se a métrica é a próxima aposta, o sistema vai encontrar a próxima aposta, custe o que custar a quem está do outro lado da tela. Pensar nos requisitos antes de desenvolver não é burocracia; é responsabilidade.
Para quem usa a tecnologia, o que está ao alcance é simples e difícil ao mesmo tempo: conversar sobre o assunto em casa, na escola e no trabalho, sem tabu, e não participar de apostas em que parte do dinheiro, no longo prazo, fica com a casa, aconteça o que acontecer.
E deixo uma pergunta que ainda não sei responder: que outro mercado, com danos claros e benefícios pouco claros, estamos tratando como normal?
📚 Referências e Fontes
🔗 Conexões do Cofre
- Conceitos:
- Sobre Bets
- Econômicos
- Matemática:
- Outros:
- Fontes internas:
- Livros citados:
- Posts irmãos:
🌐 Referências Externas
- MP proíbe bets e determina encerramento das operações em 30 dias • Senado Notícias
- Entenda medida provisória e projeto que proíbem bets no Brasil • Agência Brasil
- Apostas de quota fixa • Ministério da Fazenda
- Boletim fiscal nº 3 • Comsefaz
- As bets não esvaziaram o varejo (contraponto do setor) • Estadão
- Pesquisa bets, onda 2 (jun. 2025) • ABMES
- Lula e a proibição das bets • Café da Manhã
- Tem que fechar mesmo • Atila Iamarino