📝 Lição Aprendida em Fracasso - De Colecionador de Ferramentas a Produtor de Conteúdo
Resumo
O que o leitor ganha? Um convite a olhar para os próprios fracassos “pequenos” — aqueles sem consequência grave — como uma fonte de aprendizado mais rica do que os sucessos, a partir da minha experiência como “colecionador de ferramentas” durante o mestrado e o doutorado, e de como uso IA hoje para sair desse ciclo.
Público-alvo: Pesquisadores, entusiastas de PKM/produtividade e qualquer pessoa que já se pegou organizando o processo de trabalho em vez de fazer o trabalho.
Introdução
Costumamos guardar e recontar nossos sucessos com muito mais cuidado do que os nossos fracassos. Essa parece ser uma máxima ainda mais forte no mundo conduzido pelas redes sociais: os sucessos viram destaque no currículo, no post do LinkedIn, na foto do Instagram, enfim, tudo produzido para mostrar o melhor lado de nós. Já os fracassos raramente aparecem, a não ser como piada rápida para gerar ainda mais conteúdo.
No meu caso, noto o oposto: os meus bons fracassos, ou seja, aqueles que não trazem consequência grave nem para mim, nem para as pessoas ao meu redor, costumam me ensinar muito mais do que os sucessos já me ensinaram.
Acredito também que coletamos, ao longo da vida, muito mais fracassos do que sucessos. E, ainda assim, temos pouca abertura para falar sobre eles. Hoje eu gostaria de compartilhar um dos meus principais fracassos até agora e o que tenho feito para transformar esse fracasso em aprendizado, mesmo sabendo que, de tempos em tempos, ele ainda volta a se repetir.
Vamos à minha história sobre como tentei, mais de uma vez, produzir conteúdo para a internet e como, finalmente, nas últimas semanas, tenho conseguido produzir mais.
Uma Sensação Inicial de Progresso
Por um bom tempo, durante o mestrado e o doutorado, fui um colecionador de ferramentas e notas. Testei o Notion, o Obsidian e o Logseq, entre tantas outras ferramentas de escrita e anotação. Foi um período em que experimentei praticamente tudo o que aparecia na minha frente e ficava preso em um mar de plugins, formatos, notas, ideias e… bem, perdido no fim das contas. Só depois de muito tempo percebi que o que eu precisava era de um sistema simples, e foi assim que cheguei ao Obsidian, que uso até hoje.
O problema é que esse hábito foi, aos poucos, me afastando das atividades que eu deveria de fato estar executando. Não era apenas procrastinação: era uma ação que dava uma sensação de progresso e desenvolvimento, mesmo que eu soubesse, racionalmente, que não estava indo a lugar nenhum. Imagino que seja, guardadas as devidas proporções, a mesma sensação de um colecionador contumaz, que acredita poder precisar de um item no futuro, afinal, a utilidade dele não está no presente, mas nas possibilidades que carrega.
Configurar um novo sistema, migrar notas de um app para outro, testar um plugin novo: tudo isso parecia trabalho e, no fim das contas, de certa forma, até era. Lembro de gastar horas do meu dia organizando notas, reescrevendo-as, adicionando tags e outros metadados. Produzindo texto que, no fim, não seria utilizado nem por mim, nem por ninguém. O que eu deveria estar produzindo de fato permanecia parado, ou avançava a passos muito lentos.
Foi nessa época, enquanto escrevia parte da minha tese de doutorado, que o estalo veio: Se eu só coletar informações nunca produzirei algo relevante nem para min e nem para a ciência e sociedade.
Só bem depois entendi que aquilo tinha nome, algo próximo ao que li certa vez no LinkedIn (perdão, não lembro de quem) como “paradoxo do desempenho”: a sensação de estar progredindo e melhorando justamente enquanto, na prática, vamos perdendo a capacidade de executar o que realmente importa. Isso era preocupante: eu estava cada vez mais imerso e progredindo na habilidade de tomar notas, mas não exercitava a habilidade que seria, de fato, meu diferencial: escrever e produzir textos científicos.
No Meio do Caminho, Tentei Produzir Conteúdo — e Deu Errado
Com uma coleção cada vez maior de notas bem organizadas, eu presumia que produzir conteúdo, seja ele um artigo, um capítulo da dissertação, um vídeo no YouTube, um post no LinkedIn ou outro formato, seria o próximo passo natural. Bastaria coletar as ideias, construir conexões entre elas, escrever e publicar, certo?
Errado.
Esse processo, ainda mais quando o objetivo é gerar conteúdo com alguma profundidade, exige muito mais do que uma coletânea de informações bem etiquetadas e categorizadas. Exige a capacidade de refletir sobre o que foi coletado, de conectar ideias que não nasceram juntas, de construir uma história com começo, meio e fim, e por fim de escrever, continuamente, por um longo período até que a habilidade de escrita esteja devidamente exercitada. Eu tinha me tornado excelente em guardar conhecimento e péssimo em transformá-lo em algo comunicável. Tinha o material, mas ainda não tinha desenvolvido o músculo de narrar. Assim, ficava preso ao próprio conteúdo que consumia, sem capacidade de gerar conteúdo claro e preciso. Isso era ruim, ainda que não fosse grave e que o custo fosse uma grande quantidade de horas gasta coletando dados.
Como esse Problema Mudou minha forma de Produzir
Foi esse desconforto — perceber que eu sabia guardar, mas não sabia contar — que começou a mudar a minha forma de trabalhar. E foi também aí que a Inteligência Artificial generativa entrou na equação, não como atalho, mas como catalisadora.
Hoje uso IA não como uma ferramenta que produz por mim mas sim como uma interlocutora que me obriga a pensar melhor: ela questiona meus argumentos, aponta lacunas na minha lógica e me devolve minhas próprias ideias em uma forma mais organizada. Claro que eu ainda preciso revisar, contestar e tomar posse das ideias. Para escrever este post, por exemplo, primeiro construí o rascunho inteiro numa nota do Obsidian, com as ideias e a história que eu queria contar. Esse é um primeiro processo que leva um bom tempo, pois exige uma curadoria de ideia, uma releitura de muitos temas e notas, para só então começar a rascunhar o texto. Depois, pedi ao Claude Code que levantasse perguntas para eu refletir. Passei um tempo respondendo a essas questões e, só então, incorporei as respostas ao texto final. Por fim, pedi à ferramenta que revisasse a minha escrita.
Nesse sentido, a IA ataca diretamente o “paradoxo do desempenho” que descrevi acima: em vez de me dar mais uma ferramenta para colecionar ou para produzir conteúdo no meu lugar, ela parte das minhas próprias ideias, devolve perguntas que as expandem, e só depois entra o refino e o polimento final. Isso me obriga a produzir algo, ainda que imperfeito, que pode ser lapidado aos poucos até virar uma ideia concreta. Acredito que seja muito semelhante ao processo de ter um revisor ou professor auxiliando no desenvolvimento de um texto, ainda que certamente o trabalho destes seja muito superior do que o da máquina.
Conclusão
O que mudou primeiro, nesse processo, não foi a ferramenta mas sim o hábito. Comecei a tentar escrever mais do que colecionar informação, reservando pelo menos 30 minutos por dia para isso. Ainda que eu não saiba exatamente o que vou escrever, simplesmente começo. Às vezes é só editar uma nota antiga, mas já é o suficiente para destravar as ideias e me colocar no modo de contar uma história.
Confesso, no entanto, que esse padrão de colecionar ferramentas, evitar o trabalho real e se sentir produtivo sem de fato produzir, ainda me pega de tempos em tempos, especialmente quando sinto que preciso dar conta de uma atividade grande (ou de várias, ao mesmo tempo). Acho que isso é agravado pelas muitas frentes que um professor-pesquisador precisa sustentar: montar aulas, revisar documentos, escrever e revisar artigos, orientar alunos, cuidar de orçamento e captação de recursos, entre tantas outras responsabilidades. Não é um problema resolvido, é uma tensão com a qual aprendi a conviver.
Se você se reconhece nesse ciclo, minha recomendação é começar pequeno: escolha uma única coisa que perceba estar atrapalhando a sua rotina e substitua por outra coisa pequena, no lugar dela. No meu caso, foi trocar 30 minutos de coleta de informação por 30 minutos de escrita e produção. Com o tempo, essa pequena troca vai se acumulando e se transformando em algo maior.
E você?
Existe algum hábito na sua rotina que parece produtivo, mas que, no fundo, está te afastando do que você realmente precisa produzir? Qual seria a menor troca possível para começar a testar isso?
🔗 Conexões & Contexto
- Tema Principal: Fracasso como fonte de aprendizado; da coleta de ferramentas à produção de conteúdo.
- Notas Alimentadoras: