📝 Carregando Fardos - o que Death Stranding 2 me ensina sobre trabalho invisível

Em poucas palavras

O que o leitor ganha? Uma lente para notar o trabalho invisível ao seu redor — dentro e fora da vida acadêmica — usando a mecânica de carregar cargas de Death Stranding 2 como ponto de partida acessível, mesmo para quem não joga.
Público-alvo: Quem se interessa por reflexões pessoais sobre trabalho, carreira acadêmica e sobrecarga — jogar Death Stranding não é pré-requisito.


Introdução

Como parte das minhas estratégias para manter o equilíbrio e a sanidade mental, gosto de jogar videogame. Na minha última jornada, acabei jogando Death Stranding 2, desenvolvido pela Kojima Productions. Não vou dar spoilers — o jogo realmente vale a pena ser vivido sem isso — mas percebo que ele traz algumas analogias que gostaria de compartilhar aqui.

O que mais me chamou atenção não foi uma cena específica, mas algo mais sutil: o trabalho repetitivo no meio da história. Construir estruturas, rodovias, trilhos — tudo isso demanda recursos, tempo e, na maior parte dos casos, o auxílio de muitas pessoas. Não há atalho mágico. A constância é, ela mesma, o ponto.

Equilibrar cargas (físicas e mentais)

A principal mecânica tanto de Death Stranding 2 quanto de Death Stranding é a de que você é um portador: alguém que leva cargas de um local a outro. O objetivo é expresso de forma quase literal: leve esse tanto de cargas daqui até ali. No caminho, você também pode coletar cargas perdidas por outros portadores e entregá-las ao destino certo. Mas o jogo traz uma metáfora que vai além do peso físico: o portador também precisa lidar com a carga emocional.

Caminhos difíceis, áreas complicadas, inimigos a vencer — e, no meio de tudo isso, estratégias de sobrevivência, estratégias para lidar com a própria solidão do processo e estratégias para lidar com o peso emocional dos diversos acontecimentos da história principal (e, em alguns casos, das histórias secundárias).

Cada ferramenta disponível no jogo desempenha um papel importante, e não é difícil enxergar um paralelo com a vida real. O exoesqueleto permite carregar mais peso, aliviando pernas e coluna; a escada permite atravessar rios e riachos, abrindo caminhos que antes estavam fechados; as cordas permitem escalar áreas já percorridas antes; os veículos facilitam a movimentação por longas distâncias. Na vida real, cada ferramenta também cumpre esse papel: usamos veículos para nos deslocar, dispositivos eletrônicos para automatizar parte do trabalho, redes de apoio para dividir aquilo que seria pesado demais sozinho.

Isso me faz pensar que estamos todos carregando diferentes tipos de carga, com características diferentes, e que o acesso a ferramentas e sistemas certos pode facilitar, ou dificultar ainda mais, o equilíbrio dessas cargas.

Talvez o que eu mais carregue, no dia a dia, sejam várias atividades que vão se acumulando pouco a pouco. Algumas entregas aliviam um pouco o peso, mas às vezes parece que mais tarefas entram do que saem, e o saldo, no longo prazo, é de excesso. Gerenciar isso é uma atividade constante, que exige rever os próprios conceitos e ajustar o que for necessário para garantir que a capacidade de carga esteja de acordo com a capacidade real, e não com aquilo que achamos que conseguimos carregar.

O jogo também pune decisões apressadas, fazendo o personagem cair e derramar a carga (que em muitos casos é danificada e perdida). Acredito que, em boa parte dos casos, a pressa por uma entrega pode comprometer a qualidade da entrega em si. Mas é preciso distinguir a pressa de entregar rápido demais da paralisia, que é a dificuldade de sequer começar a agir diante da demanda. São problemas diferentes, ainda que os dois atrapalhem.

Sendo assim, Death Stranding 2 transforma a ação mais banal do trabalho do portador — carregar peso, entregar algo de um ponto a outro — no coração da experiência. O jogo não deixa isso ser um pano de fundo; ele obriga o jogador a sentir o peso, o cansaço, as dificuldades de levar algo de um ponto a outro, ainda que, para adequação ao universo de jogos eletrônicos, simplificações sejam necessárias. Isso me parece uma visão contrária à que costumamos adotar na nossa vida digital, em que tentamos esconder ao máximo as dificuldades enfrentadas, para focar apenas nas entregas em si.

O trabalho invisível, mas fundamental

O trabalho dos portadores no universo de Death Stranding é o que efetivamente faz o mundo funcionar. Da mesma forma, há vários trabalhos que parecem invisíveis aos nossos olhos, mas que são cruciais. Dois exemplos claros: o trabalho doméstico, em geral feito por mulheres que muitas vezes assumem uma segunda jornada após as horas trabalhadas em empregos formais; e o trabalho de cuidado, que também recai majoritariamente sobre mulheres.

Gostaria, no entanto, de trazer aqui a perspectiva de alguém que trabalha em uma instituição de ensino superior. Há diversos trabalhadores nessas instituições que não têm a visibilidade e a centralidade que deveriam ter. Destaco alguns grupos: os alunos de mestrado e doutorado — que sim, são trabalhadores tanto quanto aqueles que atuam no setor privado; os técnicos que fazem os laboratórios e experimentos funcionarem adequadamente; o setor de suprimentos, que permite que as especificações de aquisições sejam devidamente avaliadas; e o setor de TI, que num mundo cada vez mais digital tem ganhado centralidade, mas ainda é tratado apenas como infraestrutura, e não como apoio à tomada de decisão e à definição de estratégias educacionais.

Os mestrandos e doutorandos, em especial, por vezes são tratados apenas como alunos, e não como profissionais. Isso me parece vir, em parte, da mudança de perfil dos jovens, mas também de uma visão — infelizmente ainda presente na sociedade — de que estudar e desenvolver pesquisa científica não é um trabalho que exige habilidades, tempo e recursos para ser devidamente executado. Na prática, o trabalho de um mestrando ou doutorando é, em grande medida, o de conectar ideias e testá-las: verificar sua utilidade, factibilidade, reprodutibilidade etc. No fim, são eles que carregam boa parte da pesquisa científica de um país, porque são eles que têm o tempo para perseguir os diversos caminhos que existem para serem explorados. Há aqui um paralelo direto com o portador do jogo, que conecta cidades isoladas: o trabalho de conectar partes que não se falam raramente é visto, mas é o que sustenta o todo.

Eu me incluo nessa reflexão. O trabalho de professor é, em grande parte, invisível. A entrega que parece óbvia — uma aula dada — é, na verdade, composta por uma série de atividades que vão muito além da sala de aula. Isso fica ainda mais claro quando se sobe na carreira acadêmica: quanto mais importantes as decisões para uma instituição de ensino, mais elas parecem invisíveis aos alunos.

A emoção de uma entrega bem feita

A última grande entrega que fiz foi a de um projeto de pesquisa financiado pela FINEP. Um projeto bastante ambicioso e que, embora não tenha sido entregue com a qualidade que eu esperava, exigiu unir muitas peças e atividades, o trabalho de muitas pessoas, muitos testes e construções que só com o tempo puderam ser verificadas, validadas ou descartadas — e, principalmente, consolidadas numa entrega razoavelmente grande.

O jogo dá um retorno visual e sonoro forte quando uma entrega é bem-sucedida: curtidas e conexões, que são as cordas/ligações deixadas por outros jogadores e pelo próprio jogador. Vale explicar, para quem não conhece o jogo: em Death Stranding e Death Stranding 2, estruturas construídas por outros jogadores — pontes, escadas, abrigos — aparecem de forma assíncrona no seu próprio mundo, mesmo sem contato direto entre vocês. Você pode “curtir” essas construções, e elas podem literalmente salvar sua travessia. É uma cooperação silenciosa entre pessoas que nunca se encontram.

Na vida real, a aprovação de projetos pelos órgãos de fomento é uma validação importante. Mas o que mais importa, me parece, é perceber que o trabalho realmente impactou a vida das pessoas que dele participaram, e que foi importante para as instituições, empresas e para a sociedade como um todo. É esse tipo de retorno — mais lento, mais difuso, nem sempre visível de imediato — que se aproxima da recompensa emocional de entregar algo intacto depois de um trajeto difícil.

Conclusão

O que mais me deixa incomodado, honestamente, é não saber como dar visibilidade a esses trabalhos invisíveis. Este blog e este site são uma contribuição, mas estão longe de ser um recurso suficiente para isso. Tento, dentro das minhas limitações, mostrar aos meus alunos, em especial, que o trabalho que eles desenvolvem é importante, gera impacto real e tem grande potencial para as suas vidas.

Não tenho todas as respostas sobre trabalho invisível — e talvez nem devesse ter. É uma reflexão em andamento, não uma tese fechada. Fica, então, um convite: qual trabalho é invisível para você?

E você?

E quais cargas você tem carregado, sozinho ou em grupo, que se beneficiariam de uma rede de apoio?


📚 Referências e Fontes

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🌐 Referências Externas