A Profundidade de uma Colher de Chá

Em poucas palavras

Passei um fim de semana navegando pelo LinkedIn e saí de lá com um desconforto que demorei horas para nomear: quase tudo o que li tinha a profundidade de uma colher de chá. O problema não é o resumo em si — resumir é um serviço legítimo e antigo, e eu mesmo resumo em toda aula que preparo. O problema é a vitrine que não tem estoque atrás dela, somada à velocidade com que trocamos de assunto antes de entender qualquer um. E, sim: este texto também começa com um resumo. A contradição é parte do argumento.


Introdução

Neste fim de semana, aproveitando o frio que estava fazendo na minha cidade, resolvi navegar sem pressa pelo LinkedIn. Não fui atrás de nada específico: só rolei o feed, como se folheasse uma revista. Foi, no entanto, uma navegação intencional — não era uma daquelas vezes em que abrimos o aplicativo para matar o tempo, mas uma tentativa deliberada de entender como aquela ferramenta opera, o que ela escolhe me mostrar e qual o impacto disso sobre a minha percepção da realidade. Depois de uns trinta ou quarenta minutos, comecei a sentir um desconforto que não sabia nomear.

Só entendi o que era à noite, quando fui ler o livro Inteligência artificial a nosso favor, escrito por Stuart Russell. Foi a mudança de ritmo que denunciou o problema: eu tinha passado meia hora consumindo dezenas de ideias e não conseguia reconstruir nenhuma delas. O livro, em contrapartida, levava páginas para chegar onde um post chegava em três linhas — e, ao chegar, eu sabia como tinha chegado.

Meu desconforto, ironicamente, cabe em duas palavras: “em resumo”.

O desconforto

O que me incomodou foi a superficialidade com que as ideias são apresentadas por lá. Não que isso seja uma particularidade do LinkedIn, e talvez meu erro tenha sido exatamente esse: esperar que uma plataforma que se anuncia como profissional tivesse um pouco mais de profundidade nos textos dos mais distintos autores. Especialmente naqueles com o selo “Top Voice” e semelhantes. Não foi o que encontrei.

A maioria das postagens que apareciam para mim era de textos curtos, muitos acompanhados de imagens e carrosséis, expondo determinada ideia. Ainda que as ideias fossem por vezes interessantes, quase sempre vinham simplificadas para ganhar visibilidade. Isso fica mais evidente quando a imagem vem acompanhada de texto: a imagem já traz uma frase, e o texto apenas repete, com mais palavras mas no mesmo nível, o que a imagem já dizia. Não há aprofundamento. Não há escrita que se possa ler como complementar ao que está sendo exposto. Há redundância disfarçada de desenvolvimento.

Isso fica ainda mais claro nos posts promovidos. E aqui abro um parêntese: é muito, mas muito chato perceber que boa parte do que eu leio no LinkedIn é patrocinado, e que a única forma de notar isso é reparar na palavra “patrocinado” logo abaixo do nome do perfil. Fecha parêntese. Esse tipo de post costuma vir de alguém que está claramente tentando vender um produto ou uma mentoria e que, para sustentar um funil, precisa de uma mensagem clara, concisa e que gere o clique. Mesmo que o clique não converta em venda, com milhares de cliques uma pequena parte converte. A matemática funciona. A leitura é que não. E, no fim, o prejudicado é o leitor.

E é justamente aí que a coisa deixa de ser uma questão de gosto pessoal e vira uma questão de incentivo. Se a métrica que sustenta a plataforma é o clique, o texto profundo não é apenas menos popular: ele é economicamente irracional para quem escreve ali. Ninguém precisa decidir “vou ser raso”. Basta que, semana após semana, o post raso tenha desempenho melhor. A superficialidade não é uma escolha editorial; é o resultado previsível de um sistema de recompensas, e é por isso que reclamar dos autores individualmente me parece pouco útil.

Esse também é um argumento presente no livro Inteligência artificial a nosso favor que mencionei anteriormente, ainda que não seja o argumento central. Ao definir que o objetivo de uma plataforma é o click-through, os algoritmos vão, pouco a pouco, priorizando conteúdos que gerem ganhos nessa métrica, ainda que em detrimento do conhecimento, da profundidade e da relação entre as pessoas. O sistema não está quebrado: ele está fazendo exatamente aquilo que pedimos que fizesse.

A prova está no que eu não consigo lembrar

Se você me pedisse agora para citar um post específico daquele fim de semana e apontar exatamente o que faltava nele, eu não conseguiria. E essa é, para mim, a evidência mais forte de tudo o que estou dizendo: não uma falha do meu argumento, mas o argumento em si.

Passei mais de meia hora consumindo dezenas de ideias e não sobrou nenhuma. Não sobrou porque eu consumi apenas o produto final: a conclusão embalada, pronta para o consumo. Não acompanhei a construção de nenhum argumento, não vi ninguém defender uma posição contra uma objeção, não vi um dado ser interpretado. E o que não foi construído na minha frente não gruda em lugar nenhum.

Isso tem uma consequência que me parece pior do que o esquecimento. Se eu só consumo conclusões, perco duas coisas ao mesmo tempo: a memória do que li e a capacidade de argumentar sobre aquilo. Fico com uma opinião emprestada que posso repetir, mas não com um raciocínio que eu possa examinar, testar ou contestar.

Não é só profundidade: é velocidade

Ao escrever isto, percebo uma segunda coisa que não tinha visto no sábado. O problema não é apenas a profundidade de cada peça. É a velocidade com que os assuntos se alternam.

Em meia hora eu passei por gestão, carreira, inteligência artificial, liderança, mercado de trabalho, um vídeo motivacional e uma vaga de emprego. Nenhum desses temas teve tempo de se instalar antes de ser substituído pelo seguinte. Mesmo que cada post fosse razoavelmente bom (e alguns eram), a sequência inviabilizaria qualquer construção. Pensar exige permanecer em um assunto tempo suficiente para que ele ofereça resistência, para que apareçam as partes que não se encaixam.

O feed não oferece esse tempo. Ele é projetado justamente para não oferecer: a próxima peça precisa chegar antes que a anterior canse. Profundidade e velocidade, aqui, são o mesmo problema visto de dois ângulos: não dá para aprofundar o que não permanece.

Tudo profundo, como uma colher de chá

Ao refletir mais sobre o assunto, percebi que estamos, cada vez mais, deixando tudo com a profundidade de uma colher de chá.

Os textos ficam mais curtos; às vezes viram imagens, às vezes viram vídeos de trinta segundos. Livros que antes traziam páginas de demonstração, de condução do pensamento, de construção paciente de um argumento, viram coletâneas de frases de efeito amarradas por histórias anedóticas. Infográficos detalhados viram três números principais. Artigos científicos viram quatro ou cinco highlights na página do periódico. Aulas viram slides; slides viram resumos; resumos viram cards.

O que se perde nesse caminho, me parece, não é informação mas sim a estrutura. Um bom argumento não é a sua conclusão; é o percurso que torna a conclusão defensável. Quando fico apenas com a conclusão, eu ganho algo que posso repetir, mas não ganho nada que eu possa examinar, testar ou contestar. E, pior: fico com a sensação de ter entendido, que é exatamente o que me impede de procurar o texto completo.

Isso fica ainda mais exacerbado na era da Inteligência Artificial Generativa e da produção de conteúdo desenfreada. Além disso, a pressão por maior produção, e não necessariamente por qualidade, acelera ainda mais esse processo. Trocamos profundidade por abrangência. E, como toda troca, essa também tem um preço que só aparece depois. Talvez muito depois do que conseguimos visualizar agora, e muito depois de os impactos negativos já estarem fortemente estabelecidos e amplamente distribuídos.

O que eu não posso afirmar

Aqui preciso ser honesto sobre os limites do que estou dizendo, porque seria fácil transformar isto numa reclamação nostálgica, e eu desconfio bastante de nostalgia como argumento.

A tese “estamos perdendo profundidade” pressupõe um passado que tinha mais. E há aí, quase certamente, um viés de seleção: eu comparo o feed de hoje com os melhores livros de cinquenta anos atrás, não com o jornal médio ou com a conversa média de 1975. O conteúdo raso do passado simplesmente não sobreviveu para eu comparar. Além disso, sejamos francos: eu não vivi o suficiente (tenho 32 anos) para ter observado essa distinção em outras épocas com alguma propriedade.

O que me parece defensável é uma versão mais modesta do argumento: não que o conteúdo profundo tenha desaparecido, mas que ele ficou muito mais difícil de encontrar. O volume de conteúdo superficial cresceu numa escala sem precedente, e o resultado prático é que o texto denso fica soterrado. Ele existe, provavelmente até existe mais do que nunca, em números absolutos. Só que encontrá-lo passou a exigir um esforço deliberado que antes o próprio ambiente fazia por nós.

Em defesa do resumo

Preciso ser justo comigo mesmo aqui, porque seria fácil transformar isso em uma reclamação, e porque eu exerço todos os dias a prática que estou criticando.

Resumir é uma prática antiga e legítima. O abstract de um artigo científico existe há muito tempo e cumpre uma função clara: permitir que eu decida, em poucos minutos, se vale a pena investir três horas naquele texto. Sem ele, a pesquisa seria inviável, afinal ninguém consegue ler integralmente tudo o que sai na sua área. A ementa de uma disciplina, o sumário de um livro, o release de um relatório: todos são formas de compressão que servem à navegação.

E, no meu caso, a compressão é parte explícita do ofício. Não dá para imaginar que um curso de dez ou vinte horas dê conta de livros-texto de quatrocentas ou seiscentas páginas. Toda aula que eu preparo é, por definição, uma colher de chá. A pergunta nunca foi se eu resumo, mas sim o que eu faço com o resumo depois.

Quanto à minha própria leitura: eu ainda leio artigos por completo, inclusive metodologia e limitações. O que mudou ao longo dos anos não foi a profundidade da leitura, foi o filtro que a antecede, hoje bem mais claro e preciso. E isso reforça o argumento central em vez de contradizê-lo: o resumo é justamente o que me permite escolher onde gastar profundidade. Ele funciona porque, atrás dele, existe o artigo inteiro à minha espera.

Também não é verdade que texto longo seja sinônimo de profundidade. Já li artigo de vinte páginas que cabia em duas, e já vi aula de duas horas cujo conteúdo real durava vinte minutos. Prolixidade não é rigor. Há um tipo de texto longo que só é longo porque o autor não teve tempo, disposição ou ambos de descobrir o que realmente queria dizer.

Ou seja: o resumo não é o vilão. O que mudou não foi a existência da compressão, foi o seu papel.

Quando o resumo vira o destino

Aqui está, acho, o ponto que eu vinha tentando alcançar desde sábado.

O resumo funciona porque existe um artigo atrás dele. O sumário funciona porque existe um livro. A minha aula funciona — quando funciona — porque existe uma bibliografia atrás dela, e porque o semestre inteiro é uma tentativa de convencer o aluno a ir atrás dela. O resumo é uma promessa de que há mais, e o valor dele está justamente em ser uma vitrine. O que me incomoda hoje não é encontrar vitrines por toda parte, mas sim encontrar vitrines que não têm estoque. Posts que resumem um argumento que nunca foi desenvolvido e que permanece superficial em todas as suas inúmeras reproduções. Carrosséis que sintetizam um livro que o autor talvez não tenha lido inteiro, e que por vezes não fazem jus ao argumento principal da obra. Frases de efeito que são a totalidade do pensamento, e não a sua síntese.

E isso tem uma consequência que me preocupa mais como professor do que como leitor. Se meus alunos crescem em um ambiente onde a forma dominante do conhecimento é a conclusão isolada, eles têm cada vez menos oportunidades de praticar a única coisa que a educação superior realmente precisa ensinar: acompanhar um raciocínio longo, identificar onde ele se apoia e decidir se ele se sustenta. Essa é uma habilidade que não se desenvolve lendo sínteses, do mesmo modo que ninguém aprende a nadar lendo a descrição de uma piscina. É por isso, aliás, que insisto tanto com meus orientandos na leitura integral dos artigos, inclusive na parte metodológica, que é justamente a que os resumos descartam primeiro.

O custo disso não aparece de imediato, e é por isso que ele é difícil de argumentar. Ele aparece devagar, como uma erosão da capacidade de construir ideias. Eu percebo isso com clareza em um momento muito específico: quando preparo uma aula para a pós-graduação. É ali, ao tentar encadear um raciocínio que precisa se sustentar diante de alunos que vão perguntar “por quê”, que eu revisito o que acho que sei e descubro onde estão as lacunas da minha própria compreensão. Ensinar é um teste de profundidade que o feed nunca aplica. E, toda vez que eu falho nesse teste, a origem da falha costuma ser a mesma: em algum momento, eu me contentei com a conclusão.

”Mas o mercado premia o raso”

Já ouvi — e imagino que ouvirei de novo — uma objeção razoável de aluno: se o que o mercado premia é a síntese rápida, o post bem embalado, a apresentação de cinco slides, por que treinar uma habilidade que ninguém paga?

Minha resposta é que a superficialidade é uma boa estratégia de ingresso e uma péssima estratégia de permanência. Ela funciona para atravessar a porta: chamar atenção, conseguir a entrevista, ser notado. Mas quem sustenta uma posição ao longo do tempo, e principalmente quem melhora de posição, precisa de outra coisa. As pessoas cujo conhecimento é raso vão sendo, aos poucos, deixadas de lado — não por punição, mas porque os problemas que chegam até elas param de caber na profundidade que elas têm.

E há um argumento mais simples ainda: o mundo é complexo e difícil. Achar que soluções superficiais resolvem problemas complexos me parece, antes de tudo, ingenuidade.

O teste que me parece possível

Não tenho uma solução para um problema que é estrutural. Não vou pedir que ninguém abandone as redes, até porque eu não abandonei.

O que me parece possível é um teste pequeno, quase doméstico, que qualquer um pode aplicar sem sair do sistema em que está: depois de fechar o aplicativo, eu consigo reconstruir algum argumento que li? Não repetir uma frase — reconstruir. Dizer de onde a pessoa partiu, o que ela usou para sustentar a posição, o que ela deixou de fora.

Muita gente não tem a opção de sair da produção desenfreada, seja por incentivo financeiro, seja por métrica de desempenho, e não me parece útil julgar isso. Mas parar para perguntar se sobrou alguma coisa é uma pergunta que cabe em qualquer rotina. No meu caso, a resposta naquele sábado foi não. E foi essa resposta que virou este texto.

A contradição que me cabe

Não escapo disso, e seria desonesto fingir que escapo.

Este texto começa com um resumo. Quando eu o divulgar no LinkedIn, vou escrever um texto curto de chamada, provavelmente com uma frase de efeito. Meu argumento central, aliás, cabe numa linha:

O resumo é a primeira vista de uma vitrine. O problema começa quando não há estoque para entregar, em detalhe, o que a vitrine prometeu.

Pronto. Se você leu só essa frase, você tem a conclusão. Mas não tem o fim de semana frio, nem o livro à noite, nem a percepção de que a superficialidade é um efeito de incentivos e não de caráter, nem a ressalva de que o abstract científico é uma ferramenta legítima, nem a admissão de que eu mesmo comprimo conteúdo em toda aula, nem a preocupação pedagógica que, para mim, é o que dá peso ao assunto. Você tem o rótulo, não o conteúdo. E é exatamente por isso que eu continuei escrevendo depois do resumo.

Cheguei a pensar em tirar o callout “Em poucas palavras” para ser coerente, mas concluí que não. A diferença entre o meu resumo e o do feed não está no resumo: está na distância até o texto completo. Aqui, os dois ocupam o mesmo lugar. O leitor lê as poucas palavras, decide se o assunto lhe interessa e, se quiser, rola meia tela e encontra o desenvolvimento inteiro. Nada disso está apartado, atrás de um clique, em outra plataforma ou simplesmente inexistente.

Talvez seja essa a saída possível, e ela é bem menos heroica do que “abandonar as redes”: não recusar a compressão, mas garantir que sempre exista algo atrás dela. Escrever o resumo depois do texto, e não no lugar dele. Deixar a vitrine pronta para visualização, mas garantir que haja estoque suficiente para quem tiver interesse em consumir o produto — ainda que a maioria vá passar reto pela vitrine, e que tudo bem.

Conclusão

Saí daquele fim de semana com menos certeza do que entrei, o que geralmente é um bom sinal. Ainda que tal atitude vá, pouco a pouco, complicando mais a vida.

Não acho que o problema seja o LinkedIn, nem os autores, nem o formato curto. Acho que o problema é estrutural, especialmente nas redes sociais: construímos um ambiente de informação que recompensa a abrangência e a velocidade, cobra caro pela profundidade, e depois nos surpreendemos que quase tudo tenha ficado com a profundidade de uma colher de chá. Construímos algoritmos que priorizam o lucro, e depois nos perguntamos por que as interações vêm perdendo qualidade.

O que posso controlar é pequeno, mas não é nada. Posso continuar escrevendo textos que não caibam num card, ainda que possam ser resumidos nele. Posso continuar exigindo dos meus alunos, e talvez mais importante de mim, a leitura completa e aprofundada de diferentes temas. Posso preparar minhas aulas sabendo que a colher de chá que eu entrego precisa ter uma bibliografia de verdade atrás dela. Posso usar o resumo como convite, mas nunca devo usá-lo como substituto. E posso, como fiz neste fim de semana, prestar atenção no desconforto em vez de rolar mais um pouco até ele passar. Afinal, o desconforto é, por vezes, um indicativo de que algo está errado conosco, com o nosso ambiente ou com a relação que temos com esse ambiente.

O desconforto, afinal, foi a única coisa daquela meia hora que sobreviveu até a noite. Sinceramente, não me recordo de nenhuma ideia que consumi naqueles trinta ou quarenta minutos.

E você?

Da última vez que fechou um aplicativo depois de meia hora rolando o feed, você conseguiria reconstruir algum argumento que leu? Não repetir uma frase — dizer de onde a pessoa partiu, no que ela se apoiou e o que ela deixou de fora.


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