🎧 A festa para KN e a política no WhatsApp de Vorcaro

Em poucas palavras

Entrevistado: Breno Pires, repórter da revista Piauí.

O ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), estuda estender seu período de impedimento no caso Master, depois da revelação de mensagens que sugerem que Daniel Vorcaro custeou e promoveu uma festa com garotas de programa para o ministro, em 28 de fevereiro de 2025.

As mensagens obtidas pela Polícia Federal e reveladas pela revista Piauí não deixam claro se o dono do Master participou do evento, mas indicam que ele cuidou de todos os detalhes e envolveu sete pessoas na organização. Nunes Marques diz que nunca autorizou ninguém a falar em nome dele e não pode se responsabilizar por conversas ou ações de terceiros.

O Café da Manhã desta terça-feira (20) fala das mensagens que jogam mais suspeitas sobre o ministro do STF e trata do que o celular de Daniel Vorcaro segue revelando a respeito de políticos e autoridades. O podcast ouve o repórter da revista Piauí Breno Pires, que conta também como o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) é implicado nesses casos —que envolvem também o advogado Willer Tomaz.


📝 Notas e Insights

A festa para “KN”

  • A reportagem da piauí, publicada em 15 de outubro, se apoia em 125 mensagens do celular de Daniel Vorcaro. A festa foi na sexta-feira 28 de fevereiro de 2025, véspera do sábado de Carnaval, no tríplex do banqueiro no Itaim Bibi, em São Paulo.
  • O ministro nunca aparece pelo nome completo: as mensagens falam em “K”, “KN” e “ministro”, e uma reforça a outra. Numa delas, o mordomo avisa que cedeu um quarto ao ministro com cinco mulheres. O nome Kassio surge dias depois, quando a agenciadora das garotas de programa cobra de Vorcaro “a moça que ficou com K”, no valor de “10” — supostamente R$ 10 mil.
  • Vorcaro acionou todo o seu staff: motoristas, chefe de cozinha, mordomo, faxineira, arquiteto, agente de viagens e a agenciadora. A festa para 15 convidados teria custado cerca de R 21 mil em carnes e caviar.
  • A festa aconteceu em meio à tentativa de salvar o Master, que Daniel Vorcaro buscava vender ao BRB (Banco de Brasília).
  • Não é a primeira vez que Nunes Marques aparece no celular. O Metrópoles já tinha mostrado a cobrança de uma mulher dizendo que Kassio Nunes Marques ficou com uma amiga dela, e o UOL trouxe mais detalhes depois. No fim de setembro, a PF achou a menção a um contrato de R$ 427 milhões em honorários a um escritório de advocacia, valores que seriam repassados à “turma do KN”.
  • Para Breno Pires, a cobertura do caso é como descascar uma cebola, camada por camada. Faltaram só imagens para confirmar a presença do ministro, que, procurado, preferiu não esclarecer se estava lá.
  • Segundo a Folha, depois das novas mensagens Kassio Nunes Marques passou a avaliar estender seu impedimento no caso. Na sessão de 15 de setembro em que o STF decidiria se Alexandre de Moraes seria investigado, ele alegou que a presidência do TSE o impedia de julgar casos com impacto eleitoral, como os ligados ao banco.

Como Vorcaro construía influência

  • A reportagem “Corte dos prazeres”, da piauí, mostrou que Daniel Vorcaro tinha uma equipe dedicada a promover festas: almoços que se estendiam, apartamentos em São Paulo, mesas reservadas em restaurantes, festas e viagens internacionais. Passou a ser procurado por senadores, deputados e integrantes do Judiciário e do Executivo.
  • À então noiva, Martha Graeff, que reclamava da presença de garotas de programa no Instagram dele, Daniel Vorcaro respondeu que aquilo era “parte do business”.
  • No fórum Brasil de Ideias, em Londres, em abril de 2024, patrocinado por ele, jornalistas foram barrados — hoje se entende melhor por quê. Mensagens do agente de viagens mostram autoridades pedindo upgrade de quarto num dos melhores hotéis da cidade, tudo pago por um banqueiro com ações no STJ e no STF.
  • Vorcaro dependia, por exemplo, de teses do STF sobre precatórios para que uma carteira comprada por cerca de R$ 10 bilhões não “virasse pó”.
  • A PF apura se houve crime nas festas. Pela lei brasileira, oferecer garotas de programa só é crime se houver lucro para quem agencia; quando o ganho buscado é influência, o enquadramento penal fica mais difícil. Breno Pires defende que o Legislativo trate a prática como ilícita, ao menos com punição na esfera cível. A denúncia, se houver, caberia à Procuradoria-Geral da República.
  • Para ele, há entre autoridades bem remuneradas uma “noção de corte”: a de que não precisam gastar do próprio bolso. Daniel Vorcaro não inventou isso, mas entrou no lobby pesado em 2023 (comprou o Master em 2019), patrocinando eventos jurídicos e organizando festas em paralelo. Breno liga o tema à proposta de Edson Fachin, presidente do STF, de criar códigos de conduta para o Judiciário — que, a seu ver, deveriam valer para os outros Poderes também.

Flávio Bolsonaro, Vorcaro e Willer Tomaz

  • Depois da reportagem do Intercept Brasil que mostrou Flávio pedindo dinheiro a Vorcaro para o filme Dark Horse, a piauí mostrou que ele voou num avião ligado ao banqueiro — o mesmo em que Alexandre de Moraes tinha voado. Flávio Bolsonaro ironizou e disse que a aeronave era de um amigo: Willer Tomaz.
  • Breno Pires chegou ao voo cruzando planilhas das CPIs do INSS e do Crime Organizado, com os passageiros e as aeronaves do terminal de Brasília. O difícil foi provar que Daniel Vorcaro já era dono do avião em janeiro: a cadeia de propriedade passava por empresas ligadas a Willer Tomaz e por uma cota vendida no fim de 2024 a uma empresa de Daniel Vorcaro.
  • Willer Tomaz é um advogado que cresceu rápido em Brasília, sempre associado a políticos. Próximo de Flávio Bolsonaro desde o início do governo Bolsonaro, defendeu o ex-ministro do Turismo Marcelo Álvaro Antônio no caso das candidaturas laranjas de 2018 e ajudou Flávio Bolsonaro no inquérito das rachadinhas. As esposas são amigas, as famílias viajam juntas, e Flávio Bolsonaro, formado em direito, pegou clientes no entorno de Willer Tomaz.
  • A tese da mera amizade fica difícil de sustentar: e-mails obtidos pela Polícia Federal indicam que Flávio Bolsonaro era usuário com acesso operacional a uma conta no Santander de uma empresa de Willer Tomaz sediada em Portugal — os dois negam. A Folha mostrou que outra empresa de Willer Tomaz pagou voos de Flávio Bolsonaro num jato particular na Europa.
  • O Estadão revelou um novo pedido de inquérito da Polícia Federal ao STF contra Flávio Bolsonaro por lavagem de dinheiro envolvendo Willer, com origem em movimentações do setor de apostas. Willer Tomaz também é investigado por suspeita de lavar dinheiro das fraudes no INSS. A busca no escritório dele, no início de agosto, segue rendendo informações.

O dinheiro do filme e o imóvel da campanha

  • Daniel Vorcaro topou investir US$ 24 milhões a pretexto do filme em dezembro de 2024, quando os dois trocaram contatos. Oito meses de mensagens se perderam porque o celular de Flávio apagava conversas após 90 dias.
  • Entre fevereiro e maio de 2025, o banqueiro pagou US$ 12,3 milhões — pouco mais da metade do prometido — por meio de empresa de um doleiro amigo. Em delação, o doleiro Antonio Carlos Freixo Junior fala em meios fraudulentos; a Polícia Federal suspeita de evasão de divisas e lavagem de dinheiro.
  • Quando o dinheiro secou, veio a cobrança revelada pela piauí em setembro de 2025, com o áudio de Flávio Bolsonaro, seguida de novo pagamento. No fim de 2025, depois da primeira prisão de Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro se encontrou com ele e disse depois que foi para pôr um ponto final.
  • Em 2026, Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro de Vorcaro, vendeu a Willer por R 5 milhões, como revelou a Folha. É o imóvel em que Flávio passou os primeiros dias da campanha, em agosto de 2026. Para a PF, Zettel era laranja de Vorcaro; Willer diz que nunca esteve com o banqueiro.

O que o celular ainda guarda

  • Muitas mensagens são de cobrança. Zettel mandava toda semana a lista de pagamentos pendentes, e Vorcaro dizia qual era prioritário — aparecem cobranças envolvendo o senador Ciro Nogueira. O ex-ministro das Comunicações Fábio Faria era um dos que mais conversavam com o banqueiro, embora negue a amizade.
  • O que veio a público é o conteúdo de um único celular, com DDD de Minas Gerais, apreendido desbloqueado; outros sete foram apreendidos. São cerca de 4 mil contatos e mais de 2 milhões de arquivos de mídia. As mensagens do celular de Zettel ainda não apareceram.
  • O caso está no início: há inquéritos sobre o BRB e sobre o dinheiro dos pensionistas do Rio de Janeiro enviado ao Master, além de situações pontuais (Ciro Nogueira, Jaques Wagner, Flávio no caso Dark Horse), mas nenhuma denúncia. Breno espera o indiciamento no caso BRB até o fim do ano e, talvez, as primeiras denúncias da PGR ainda em 2026. Uma delação de Vorcaro poderia dar sentido a muitos diálogos.

Outras notícias do episódio

  • A PF fez busca contra um ex-servidor comissionado do Superior Tribunal de Justiça suspeito de vazar minutas de decisões a Willer Tomaz, em operação autorizada por Alexandre de Moraes. A PF também investiga vazamentos do Ministério Público Federal a Willer Tomaz por meio de um subprocurador-geral aposentado. Willer nega acesso irregular a decisões ou pareceres.
  • O governo Lula antecipou o pagamento de outubro do Bolsa Família, concluído quatro dias antes do segundo turno, e fará o mesmo em novembro e dezembro, citando os riscos do El Niño. O pagamento já inclui o reajuste de 15,04%, que levou o mínimo por família de R 691, com impacto estimado de R 400 para R$ 600 antes da eleição.

💭 Minhas impressões

A rede de influência de Daniel Vorcaro continua a se expandir. O que fica evidente é que não importa a classe (política, jurídica, empresarial, econômica, bancária, jornalistica, etc), quanto mais dinheiro e contatos se tem, maior é a capacidade dominar o debate público e definir o funcionamento do país e de diversos sistemas que deveriam priorizar o atendimento a população.


📚 Referências e Fontes

🔗 Conexões do Cofre

🌐 Referências Externas