📝 Em construção - um livro sobre IA para quem vive a universidade
Em poucas palavras
Decidi começar a escrever, em público, uma série de posts sobre Inteligência Artificial, com foco em IA Generativa, para quem vive o ensino superior no Brasil. O plano é que ela vire um livro com versão digital gratuita, mas isto é uma tentativa, e o caminho pode terminar em outro lugar.
O que o leitor ganha? De onde o projeto parte: o motivo, a tese inicial, como a série vai funcionar e o que, para mim, contaria como fracasso.
Público-alvo: Professores, estudantes, coordenadores e gestores do ensino superior, de qualquer área.
📝 Introdução
Um colega de trabalho me disse uma frase que ficou comigo: “seria muito útil ter um guia para uso de IA na universidade. Algo que não fosse apenas indicando ferramentas e prompts, mas os conceitos, diretrizes para uso, análise crítica, entre outras coisas importantes para os envolvidos nas instituições”.
Desde que as ferramentas de IA Generativa chegaram às salas de aula, tenho visto duas reações dominarem as conversas nos corredores da instituição que atuo. De um lado, o entusiasmo de quem acha que tudo deve e vai mudar amanhã. Do outro, a vontade de proibir e esperar a poeira baixar, para só então, talvez, incorporar essas tecnologias. As duas me parecem compreensíveis, sendo pontos válidos nas discussões atuais. Entretanto, também acredito que as duas me parecem insuficientes, como já discuti em Framework ético para o uso de IA no ensino superior. Entre um extremo e outro, o que falta é justamente o que meu colega pediu: Um guia sobre Inteligência artificial para instituições de ensino superior
Vivo esse debate de mais de um lugar. Sou professor de computação no Centro Universitário FEI, dou aula na graduação (Nos cursos de Ciência da Computação, Ciência de Dados e Inteligência artificial e Engenharia de Robôs) e na pós-graduação (Em Engenharia Elétrica) e, desde este ano, faço parte da Comissão de Uso Ético de Inteligência Artificial do Centro Universitário FEI. Nesses espaços, percebo que a pergunta que mais aparece não é “qual ferramenta usar?”. É algo mais básico: “afinal, como isso funciona, e o que eu faço com isso?”
Também sei de onde não falo. Atuo na Ciência da Computação, em um centro universitário cujos cursos são basicamente engenharias, computação, ciência de dados e administração. Minha visão sobre o que a IA significa para o Direito, a Enfermagem ou as Artes é, por enquanto, limitada. Por isso, o convite no fim deste texto vale ainda mais para quem vive outras áreas.
🎯 O que quero construir
Quero responder, com calma, ao pedido do meu colega: um guia que não seja de ferramentas, porque elas mudam o tempo todo, mas de princípios e diretrizes de uso. Algo que ajude educadores, estudantes, coordenadores e gestores a usar essas ferramentas para melhorar o ambiente acadêmico, dar mais peso à formação universitária e analisar, de forma crítica e profunda, como elas funcionam.
📘 A tese de partida
O ponto de partida é uma tese que ainda pretendo testar: a IA é uma tecnologia criada por pessoas e usada por outras pessoas. Quem cria a ferramenta tem grande influência sobre a forma como ela será usada, mas quem usa ainda consegue moldar esse uso às suas particularidades. Entender como ela funciona, e a serviço de quê ela está, é o primeiro passo para usá-la a favor do aprendizado, e não contra ele. Isso é ainda mais crucial no meio educacional visto que a forma de uso de uma ferramenta afeta diretamente quais habilidades estão sendo desenvolvidas.
Não é uma conclusão, é uma hipótese de trabalho. Ao longo da série, vou buscar na literatura o que a sustenta e verificar se ela se mantém. Além disso, pode ser que ela esteja completamente errada ou que seja muito mais complexa de ser analisada do que eu tenho capacidade. Isso faz parte do processo de pesquisa e aprendizado. Além disso, reconhecer minhas limitações é um ponto importante para compreender o que posso entregar efetivamente.
📐 O que já está definido, e o que ainda não está
- Para quem: professores, estudantes, coordenadores e gestores, de qualquer área. Não é preciso saber programar. Eu mesmo só aprendi já na pós-graduação, e lembro bem como é olhar para esse mundo de fora. Espero apenas que esse meu olhar permaneça presente ao longo do livro.
- Como: um livro curto, claro e direto, com cerca de 200 páginas. A ideia é que dê para ler entre um semestre e outro. Quem sabe atualiza-lo em alguns anos, afinal é uma tecnologia com aplicação da forma que conhecemos relativamente recente e que, ao meu ver, tem um grande potencial de impactar de formas distintas a área educacional.
- O que vai durar: conceitos e critérios, e não listas de ferramentas. Ferramentas mudam a cada semestre (as vezes até numa mesma semana); já bons critérios para escolhê-las duram bem mais. O que for perecível (ferramentas, exemplos de prompts, atualizações) deve morar aqui no site, onde posso atualizar, modificar, e reescrever o meu texto quantas vezes foram necessárias. O resto, deve ficar no livro, onde as informações serão mais perenes (ou assim espero).
- Aberto: a intenção é que a versão digital seja gratuita, construída com base nos posts desta série, e que quem quiser possa adquirir uma versão impressa. O modelo de publicação, porém, só vou definir mais adiante, quanto o conteúdo do livro tiver mais corpo e quem sabe faça sentido publicar o livro definitivamente em formato impresso e e-book.
O esboço atual tem quatro partes (Que ainda podem ser alterados com o tempo, claro):
- Entender: as grandes ideias da IA, como as máquinas aprendem, como funciona a IA Generativa e o que significa manter a tecnologia a nosso favor.
- Usar: a IA como assistente do professor e como ferramenta do estudante, como conversar bem com a máquina e como escolher ferramentas.
- Repensar: avaliação, integridade acadêmica, ética, vieses e impactos.
- Institucionalizar: políticas de IA nas instituições, o cenário brasileiro e a formação continuada.
📚 O que tenho em mãos
Sendo honesto: estou no começo. Hoje, o projeto se apoia em algumas bases, sendo elas:
- O livro Inteligência artificial a nosso favor escrito por Stuart Russell, que é considerando uma das principais referências da área por ser autor do livro Inteligência Artificial - Uma Abordagem Moderna que é referência em várias universidades.
- A experiência de sala de aula. Conversas com alunos e colegas, atividades que funcionaram e outras que precisei redesenhar. Basicamente tudo o que certamente vários professores já enfrentaram ou ainda vão enfrentar (Sempre preciso me lembrar que tenho apenas 2 anos na docência, então uma boa dose de humildade sempre cai bem. )
- A experiência da comissão de ética da FEI. O exercício de pensar diretrizes para uma instituição inteira, com cursos e realidades diferentes. Parte desse trabalho já apareceu em O MIT e a FEI chegaram à mesma resposta por caminhos opostos. Outra parte certamente aparecerá uma vez que a Política Institucional para o uso de Inteligência Artificial e o Manual de Boas Práticas para o uso de Inteligência Artificial estiverem devidamente publicados na instituição que atuo.
O próximo passo é um levantamento bibliográfico mais amplo, com documentos de organismos internacionais, pesquisas sobre avaliação e IA, diretrizes publicadas por universidades brasileiras e o debate sobre regulação no país. À medida que eu ler, as notas vão aparecer aqui. Além disso, os posts devem surgir com mais frequência conforme eu for navegando mais por esses tópicos.
🛠️ Como a série vai funcionar
Vou escrever em público. Cada post da série vai testar um conceito ou uma hipótese do livro: explicar o que for preciso e trazer o embasamento, com pesquisas, documentos e infográficos, para mostrar o que pretendo defender e por quê.
Todo post da série vai indicar, logo no início, que faz parte dela, com um link para a lista completa dos posts. O primeiro capítulo a ganhar forma deve ser o que explica como funciona a IA Generativa. É o mais difícil de tornar acessível, então, se o tom funcionar ali, provavelmente funcionará no resto.
Os posts também servem a mim: são uma forma de dar vazão às ideias e de manter o trabalho andando, de forma estruturada, ao longo do tempo. A minha percepção é que colocar alguma pressão sobre min mesmo gera resultados (Só preciso controlar o nível de cobrança e entender que imprevistos acontecem).
Não tenho todas as respostas, e o livro também não terá. O que pretendo é oferecer um ponto de partida informado para uma conversa que precisa acontecer em todas as instituições, e que me parece que é cada vez mais fundamental se quisermos ter uma educação de qualidade e que atenda as diversas demandas que o sistema educacional recebe.
🧭 Uma decisão, um plano e a chance de dar errado
Entretanto, vale deixar este aviso: Isto é uma tentativa, e ela pode não dar certo.
O que decidi foi começar: escrever esta série, em público, e manter o trabalho andando. O livro é o plano, o destino para onde aponto, e destinos às vezes mudam no caminho. Gosto de pensar sobre muitos temas ao mesmo tempo e conheço o risco de outra meta aparecer no meio do percurso e tomar o lugar desta. Além disso, terei que conciliar essa escrita com as minhas diversas outras demandas e atividades.
Por isso, quero deixar claro o que eu chamaria de fracasso: desistir do livro aos poucos, deixando a ideia se perder ao longo do tempo. Chegar a um lugar diferente do planejado, por escolha consciente, é outra coisa. Uma jornada pode não terminar onde se queria quando ela começou, e isso não significa necessariamente que ela fracassou. Além disso, as vezes a jornada é mais importante do que o destino final.
Este aviso é para você, que talvez acompanhe esta série e a veja ruir com o tempo. Mas é também para mim, como lembrete de que parti em uma jornada que pode acabar em um destino diferente do que planejei. De todo modo, escrever já vale por si. E se uma única pessoa ler o livro (ou apenas estas postagens) e gostar dele, isso já será valioso demais para mim.
💬 Um convite
Por fim, um convite: se você é professor, estudante ou gestor e tem uma experiência com IA no ensino superior, boa ou ruim, eu gostaria de ouvir, principalmente se você é de uma área diferente da minha. Dúvidas que você gostaria de ver respondidas também são bem-vindas. Essas conversas vão inspirar boa parte do livro. Você pode falar comigo pelos canais da página de Contato.
📚 Referências e Fontes
🔗 Conexões do Cofre
- Livros:
- Inteligência artificial a nosso favor — a referência conceitual de partida.
- Posts deste blog:
- Framework ético para o uso de IA no ensino superior — post anterior sobre as respostas de proibir ou liberar o uso de IA em sala.
- O MIT e a FEI chegaram à mesma resposta por caminhos opostos — o trabalho da comissão de IA da FEI.
- Lição aprendida em fracasso - De Colecionador de Ferramentas a Produtor de Conteúdo — o risco de trocar a produção pela organização, que este projeto também corre.
- A filosofia de estar em construção