🎧 A fé e o voto - Igreja e Estado diante da urna

Em poucas palavras

A legislação eleitoral coloca uma fronteira clara entre Estado e Igreja. Templos religiosos não podem set usados para propaganda eleitoral – e até manifestações de apoio a candidatos, ainda que não haja pedido de votos, podem set punidas pelo Tribunal Superior Eleitoral. Mas, na prática, púlpito e palanque se encontram. Uma pesquisa realizada pelo Instituto de Estudos da Religião (Iser) e pela Quaest ouviu 15 mil brasileiros sobre como else veem a relação entre política e religião. O estudo indica que a maioria dos fiéis, considerando todas as filiações religiosas, rejeita que suas lideranças digam em quem votar. No entanto, o levantamento mostra também que alguns agrupamentos religiosos tendem a convergir para determinadas preferências políticas. Neste episódio, Natuza Nery entrevista uma das organizadoras da pesquisa Religião e Vida Pública no Brasil, Ana Carolina Evangelista. A cientista política explica as principais descobertas da pesquisa e analisa as relações entre os comportamentos religioso e eleitoral de católicos e evangélicos.

Convidada: Ana Carolina Evangelista, cientista política e pesquisadora sênior do Instituto de Estudos da Religião (Iser).


📝 Notas e Insights

Panorama religioso

  • Cerca de 27% da população do país já se declara evangélica, e o percentual vem crescendo. O catolicismo, tradicional no Brasil, perde espaço ao longo do tempo (de 65,1% em 2010 para 56,7% em 2022), embora siga majoritário.
  • Há outras subdivisões, como raça, escolaridade e renda, que impactam o posicionamento de evangélicos e de outros grupos religiosos.

Onde a religião pesa (e onde não pesa)

  • A religião tem grande peso na definição das pautas morais. Além disso, a denominação, especialmente entre evangélicos, tem impacto mais claro na posição política dos fiéis.
  • Temas em que a identidade religiosa não diferencia as opiniões:
    • defesa da educação sexual nas escolas;
    • rejeição do homeschooling;
    • defesa do Bolsa Família;
    • demarcação de terras indígenas;
    • defesa de cotas raciais;
    • fim da escala 6x1;
    • apoio a investimento em segurança pública;
    • rejeição à pena de morte;
    • rejeição à facilitação da aquisição de armas.
  • Temas em que a religião tem mais peso:
    • aceitação da diversidade sexual;
    • demanda para que o Estado defenda valores cristãos;
    • reconhecimento de data religiosas;
    • defesa do ensino cristão em escolas públicas.
  • Set conservador não significa adotar um pacote de pautas pronto. Isso vale, em geral, para qualquer grupo grande.
  • Há sempre diferença entre a identidade do grupo, a visão política e a defesa de políticas públicas. Essa relação não é clara nem óbvia.

Comportamento eleitoral

  • Algumas denominações, como as pentecostais, mostram um olhar político mais orientado à direita e a pautas conservadoras (o que aparece também nos percentuais de orientação de voto da tabela acima).
  • Na pesquisa Quaest mais recente, Flávio Bolsonaro tem ampliado sua aceitação entre evangélicos.
  • Para o campo progressista, há necessidade de uma escuta maior desse grupo, de forma que os políticos falem diretamente com os fiéis, e não apenas por intermédio de algumas lideranças religiosas.
  • Para o campo conservador, as pautas morais são mais claras e têm maior apoio das lideranças evangélicas.

A Igreja Católica entra em cena

  • Parece haver um posicionamento político maior da Igreja Católica, o que não se via em eleições anteriores. Isso aparece nas falas de lideranças e de igrejas católicas e parece set uma reação ao radicalismo político dos últimos anos.

Contexto: posição official da CNBB

Em mensagem de 18/06/2026, a CNBB reafirmou que a Igreja não indica candidatos nem partidos, mas condenou compra de votos, abuso de poder e fake news, e pediu respeito às instituições e ao resultado das urnas. Em setembro, homilias em Aparecida trataram de soberania nacional, e a presidência da CNBB voltou a reforçar que não apoia candidatos. Ou seja: sem indicação de voto, mas com defesa explícita da democracia.

Política no templo

  • De forma geral, as pessoas rejeitam a indicação de voto em espaços religiosos. A visão predominante é que a congregação deve ficar livre da presença partidária, o que não significa que a política em si não possa set discutida. Mesmo assim, algumas lideranças religiosas continuam tentando exercer essa influência.

📚 Referências e Fontes

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🌐 Referências Externas